Crianças de 10 e 11 anos

Silvia Feola

06 de junho de 2016 | 13h05

A notícia de que um menino de 10 anos furtou um carro e foi morto pela PM na perseguição deveria chocar a todos nós por dois motivos: porque uma criança estava roubando um carro e porque ela foi morta em função disso.

Não importa qual seja a verdadeira versão acerca dos tiros disparados em direção aos policiais.

Enquanto a notícia circulava, o trend topic do Twitter no dia era a hastag #Criançasde10e11anos.

Grande parte dos comentários colocavam a responsabilidade no menino, como sempre.

Diziam que aos 10 e 11 anos eles estavam jogando videogame, esperando para chegar em casa e ver X-Men, jogar futebol, e assim por diante.

Todos sonhos e desejos de uma classe média que, pelos dizeres, parecia ter as necessidades mais básicas da vida garantidas nessa idade.

No caso do menino, qual a probabilidade de ele ter um videogame, ou uma TV a cabo, ou mais importante ainda, o carinho e o tempo de uma mãe que faz Nescau para o filho de manhã até essa idade?

Crianças nessa situação já tiveram tomado de si tudo aquilo que era próprio da infância. As perspectivas de futuro não se abriram para eles como para essas pessoas dos comentários no Twitter.

Mas a história do nosso país foi construída em cima da ideia de que a “culpa é da vítima”.

Os índios eram esses caras que não sabiam das coisas e por isso se ferraram no processo de colonização.

Que vença o mais forte, sempre.

Contra toda a ideia liberal e negativa de liberdade, de que “a sua liberdade termina quando a do outro começa”, devíamos tentar construir uma nação em que a “sua liberdade começa quando a do outro começa também”.

Enquanto formos incapazes de enxergar que o nosso vizinho não é livre, nós passaremos a vida cercados pelas grades dos condomínios.

Aqui, claro, metaforicamente falando em vizinhos, porque nessa sociedade desigual jamais seriamos nós, seres civilizados no calor do videogame, vizinhos literais dessas crianças.

Nossa segurança não vai surgir de mais iluminação, mais câmeras e homens armados ao redor do prédio. Isso só serve para expandir o fosso entre “nós e eles” e ampliar a raiva e o ressentimento de quem teve tudo negado.

Se você ainda acha que começamos todos iguais na vida, pensa em todas as vezes que você não teve frio, não teve fome e nem falta de amor.

Se você acha que ainda assim depende única e exclusivamente do indivíduo ter força de vontade para “vencer e ser alguém”, pensa em quanto é difícil contar com a nossa própria força de vontade para inúmeras coisas.

A ideia de “força de vontade” parece servir muito mais para separar os seres humanos e justificar uma sociedade desigual, do que para entendermos que o problema da desigualdade é coletivo, de todos nós.

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