Crise da representatividade e da comunicação

Silvia Feola

19 Abril 2016 | 09h06

A votação do processo de impeachment pela Câmara no domingo deixou claro o tamanho do afastamento entre os eleitores e seus representantes.

Dos 504 deputados presentes à sessão, apenas 36 forma eleitos diretamente, ou seja, por voto nominal. Todos os demais foram eleitos indiretamente, por voto na legenda.

Mas muito mais significativo do que isso, é o fato de que a votação do impeachment não se decidiu por genuína vontade popular – vale lembrar que a população está dividida nessa questão – e os indícios do crime de responsabilidade foram bem pouco mencionados como motivação do sim na votação.

O descontentamento com a atual situação econômica tampouco é motivo legítimo (previsto por lei) para o afastamento de um presidente eleito. Afinal, é para isso que existe o voto a cada 4 anos, para que possamos mostrar nosso descontentamento e eleger ou não uma determinada sigla ou um determinado candidato.

Por tudo isso, parece correto afirmar que a votação do processo de impeachment se decidiu por negociatas nos bastidores, daquelas que a gente consegue imaginar um enredo bem dramático. Troca de cargos, promessas de ministérios, ou até quem sabe o silêncio em uma eventual delação premiada.

Os jornais repetem constantemente que Dilma não seria uma pessoa fácil de lidar e que tem dificuldades em tecer alianças. Se isso for mesmo verdade, o entendimento do impeachment sob essa perspectiva vem a calhar.

De qualquer forma, não importa de “qual lado” você esteja – pró ou contra o impeachment – no domingo todos saímos perdendo. Mesmo que você acredite que qualquer tipo de governo (com Temer ou Cunha) será melhor do que o governo Dilma.

Quando os deputados votaram em nome de seus familiares, aludindo assim ao futuro da nação, ficou claro que encaram o futuro do país como uma extensão do seu quintal privado. Parece que o republicanismo é algo para se aprender na escola, mas não para exercer nos cargos públicos.

Mais triste ainda é perceber que não há diálogo possível entre as partes que se colocam em lados opostos à questão do impeachment da presidente. É bem verdade que o Brasil sempre esteve dividido, mas a participação na política poderia ter o efeito de trazer as pessoas a uma discussão enriquecedora. O que hoje de modo algum é possível.

O esquema do Facebook de selecionar as publicações com as quais interagimos faz com que compartilhemos memes basicamente apenas com os nossos pares, reforçando nossa opinião sobre um assunto e nos abstendo de ver como o outro lado pensa de verdade.

No fundo, o ódio irracional ao PT ainda cai na velha história do conflito de classes. Talvez um mal interpretado.

A crise da certeza no futuro atingiu a classe média branca no mundo todo, junto com a crise do capital de 2008. Um pouco como a direita dos países ricos coloca a conta na imigração, a direita brasileira responsabiliza os avanços sociais de classes que se favoreceram minimamente (e apenas minimamente) com a ascensão do governo petista.

Muito mais do que um conflito baseado em fatos sociais concretos, a divisão atual entre os eleitores parece ser mais regada por preconceitos do que qualquer outra coisa. Precisamos responsabilizar pessoas porque perdemos segurança e privilégios, mas não enxergamos que o sistema econômico é cíclico e provoca sempre a reinvenção do indivíduo e dos seus meios de trabalho.

Nesse contexto, não parece surpreendente que Bolsonaro tenha tamanho número de seguidores. Ele é uma das únicas personalidades públicas a ter a audácia de dizer, para quem quiser ouvir, absurdos que muitas pessoas até concordam, mas não conseguem expressar para si mesmas do mesmo modo. Então, elas precisam racionalizar a raiva porque não têm coragem de repetir para si as barbaridades proferidas por ele.

A guinada à direita é um fenômeno bem atual. Há um Le Pen dando as caras no mundo todo. Por que não haveria um no Brasil?