EI: um verdadeiro Estado?

Silvia Feola

27 de julho de 2015 | 15h07

Embora a maior parte do mundo continue a considerá-lo uma organização terrorista, o EI tem operado como um Estado eficiente e organizado em muitas regiões ocupadas na Síria e no Iraque, de acordo com relatos de moradores que vivem sob o regime.

As brutais invasões de territórios são contrabalanceadas pelo grupo com ações que visam atender demandas da população local que não estão sendo preenchidas pelo Estado de fato.

Como afirma Pankaj Mishra, em artigo no The Guardian, “o EI oferece a segurança da identidade coletiva a indivíduos isolados e com medo”.

Nesse sentido, o autoproclamado “califado” tem se organizado em uma estrutura burocrática semelhante a do Estado-nação moderno. Nos territórios sob seu domínio há uma divisão hierárquica do trabalho, impostos são recolhidos, carteiras de identidade são emitidas, e tem até uma regulamentação da pesca que visa preservar o ecossistema marinho.

Embora os métodos de punição sejam brutais, boa parte da população vê o EI como mantenedor da ordem, agindo contra a corrupção. Fato é que as leis do regime são rigidamente cumpridas. Vale lembrar que, não muito tempo atrás, foi um pouco esse o caminho que garantiu o apoio da população afegã ao Taleban.

Contra todas as expectativas, alguns especialistas começam a acreditar que a possibilidade de negociação política com o EI no futuro não é mais algo impensável. De acordo com eles, talvez não seja absurdo interpretar o EI como um potencial movimento revolucionário, que pode caminhar para a legitimidade política, tal como o Hezbollah o fez no Líbano.

De qualquer forma, não deixa de ser interessante pensar que a “volta às raízes” proposta pelo Estado Islâmico anda capengando.

Como produto da interferência do Ocidente no Oriente Médio, o EI tem reproduzido as teorias raciais e étnicas que pautaram as invasões dos Estados-nação no início do século XIX, alegando que os sunitas são os únicos verdadeiros fiéis, e tratando os demais como seres sub-humanos.

Ainda que contrários à cultura ocidental, postam vídeos na Internet que vangloriam o “self”. Não à toa, Jihad John tornou-se uma personalidade (ajudado pela mídia, é verdade).

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