Eleição americana minimiza a xenofobia

Silvia Feola

19 Outubro 2016 | 07h55

A recente divulgação de uma gravação em que o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, fala sobre sua conduta em relação às mulheres pegaram mal para ele.

Nela, Trump se refere às mulheres de modo grosseiro e até mesmo fala sobre formas violentas de aproximação com o sexo oposto.

Ainda que a gravação seja de anos atrás, logo após a divulgação do seu conteúdo pelo The Washington Post, membros do Partido Republicano criticaram o magnata e há inclusive quem retirasse o apoio à sua candidatura.

A questão é que essa não é a primeira polêmica na qual o candidato se envolve. Antes mesmo de a corrida pela vaga no partido começar a ser levada a sério, Trump referiu-se aos imigrantes mexicanos como bandidos e estupradores.

A fala fez com que perdesse o posto de apresentador do Miss Universo, do canal NBC, e causou desconforto com alguns membros da legenda. Mas a repercussão não foi tão grande como agora.

Por causa do vídeo em que se refere às mulheres, o candidato perdeu apoio de membros e financiadores milionários da legenda.

Alguns teóricos tentam entender por que apenas nesse momento, após tantas declarações polêmicas, Trump finalmente perde seus aliados.

O economista Paul Krugman afirmou que a questão das declarações sexistas, machistas e de assédio foram o estopim para a debandada porque já se observa uma queda nas pesquisas das intenções de voto em Donald Trump. Uma hipótese plausível.

Outra possibilidade, está no fato de que Trump, ainda que em queda nas pesquisas, nunca esteve tão perto da Casa Branca. O vídeo permite uma boa saída para os membros da legenda e doadores do partido que sempre tiveram dúvidas quanto à sua nomeação.

Mas há ainda uma outra questão, pouco abordada.

O assédio está – felizmente! – na pauta do dia, tanto quanto – infelizmente – a xenofobia.

Os efeitos da crise econômica e imigratória no mundo globalizado trouxeram à tona um sentimento bairrista e nacionalista, diante do qual criticar o imigrante parece não acarretar grandes consequências entre o eleitorado.

Num mundo em que o Reino Unido vota por romper com o projeto de Europa unida, em que propostas populistas falam em construir muros, seja nos Estados Unidos ou em Calais, em que se sugere proibir roupas islâmicas na praia, nada mais coerente do que pensar que o racismo e a xenofobia chocam bem menos do que o assédio.