Esvaziamento cultural pode esconder um novo conceito de cultura

Silvia Feola

31 de julho de 2015 | 13h26

O tema do “esvaziamento cultural” é um tema que entra facilmente em pauta.

O público que frequenta os espaços tradicionais de exibição das “altas manifestações artísticas da humanidade” (modo pelo qual a Wikipédia define cultura) – isto é, cinema, teatro, exposições de arte – é visivelmente reduzido.  Mas a ideia de que os ambientes culturais por excelência têm sido gradualmente abandonados esquece de levar em conta a possibilidade de que outras e novas formas de disseminação e compartilhamento da arte estejam ocupando seus lugares.

As pessoas que hoje esvaziam as salas de cinema estão consumindo filmes e documentários no conforto do seu Netflix; buscam cultura e entretenimento pela internet; veem peças pela internet; descobrem novos artistas pelo site do New York Times ou do Huffington Post. Tudo sem sair de casa.

O acesso à informação é muito mais disseminado. A própria Wikipédia democratizou o conhecimento que antes era restrito àqueles poucos brasileiros, por exemplo, que tinham acesso à Barsa.

Quem um dia pensou que poderíamos ver um Monet sem sair do sofá da sala?

Contudo, quem busca por um Monet na internet? De fato, apenas um número reduzido de pessoas. Só que isso não é um fenômeno recente; as obras de arte sempre foram um objeto de apreciação restrito às elites.

O argumento de que a verdadeira arte está sendo substituída pelo entretenimento tampouco parece legítimo. É muito provável que a arte, no sentido clássico do termo, sempre tenha uma esfera própria.

Mas o fato de que os artigos culturais dos novos tempos ganharam uma característica de entretenimento muito maior do que a “alta cultura” do passado não implica que o que está disponível hoje seja necessariamente sinônimo de algo vazio, sem qualquer reflexão.

É mesmo possível pensar que alguns tipos de entretenimento podem trazer um pensamento reflexivo, assim como a reflexão pode vir acompanhada de entretenimento.

O fato de a cultura ter se tornado mais democrática fez com que os espaços em que ela se expressa e se mostra fossem também se convertendo em espaços mais democráticos. Algo que só foi possível no contexto atual.

Um bom exemplo disso é a ocupação de espaços públicos com diversas formas de manifestações artísticas. O Instagram (por mais absurdo que pareça) pode ser um veículo impressionante de disseminação e compartilhamento de arte e cultura, além de uma fonte tão rápida de notícias quanto o Twitter.

Certamente, com tantas opções, de maneira geral, o nível cultural dos artistas e de seus públicos diminuíram, mas essa constatação por si só não pode paralisar a reflexão sobre o fato de que novos espaços culturais têm sido criados pelas pessoas.

Medir o tamanho da apreciação da cultura pelos meios tradicionais de divulgação artística não está mais funcionando. É preciso elaborar uma nova forma de entender como a arte é expressa e consumida; um modo que esteja mais em sintonia com o mundo de hoje.