EUA: cantão liberal do mundo

Silvia Feola

18 Agosto 2015 | 11h45

O relatório anula do Bureau norte-americano de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (ATF),  mostrou que a produção de armas cresceu 140% desde 2008, ano em que Barack Obama tornou-se presidente dos Estados Unidos.

Obama tem sido um forte defensor de uma regulamentação mais rígida da venda de armas, em função dos recentes massacres, o mais chocante destes, o da Escola infantil Sandy Hook, em 2012, no qual 20 crianças entre 6 e 7 anos morreram.

Porém, as inciativas do democrata de coibir as vendas tiveram o efeito contrário de ampliar a produção e a quantidade de armas vendidas. O temor de que não pudessem adquirir uma arma no futuro fez com que muitas pessoas garantissem seu direito de compra no presente, é o que afirma David Kopel, especialista em políticas de controle de armas, em reportagem do O Estado de São Paulo.

A íntima relação entre os norte-americanos e suas armas de fogo datam do nascimento dos Estados Unidos como país independente.

A ideologia liberal foi a base sobre a qual as colônias norte-americanas construíram seu movimento de independência da Inglaterra. Individualismo, propriedade privada, livre mercado, Estado de direito, e a crença em um governo limitado simbolizam o que até hoje são os Estados Unidos.

No início, o direito de as milícias civis portarem armas era um modo de garantir a independência territorial recém-conquistada.

Mais tarde, a conquista do Oeste deu um novo motivo para fazer da posse de armas por cidadãos comuns – e não apenas pelos órgãos de defesa do Estado – algo legítimo. A conquista dos territórios indígenas foi enormemente facilitada pela proteção individual (e do grupo) que a arma de fogo assegurava.

Mesmo com as mudanças no contexto histórico, a percepção do direito de posse de armas por quase qualquer cidadão não perdeu sua força.

O medo de que um Estado forte e autoritário sobreponha suas vontades sobre as liberdades individuais é até hoje uma preocupação norte-americana que não parece encontrar um equivalente à altura no mundo.

Como crias da ideologia liberal, os Estados Unidos da América levaram adiante os desdobramentos mais extremos dessa percepção de mundo, em que os indivíduos estão sempre em primeiro lugar na consideração das coisas.

Esse histórico de posse de armas ganhou novo fôlego com uma decisão da Suprema Corte de 2008 que garantiu a posse de armas como um direito individual inalienável.

Diante de tudo isso, é evidente que a luta de Obama por um maior controle de armas de fogo é uma luta longa e que permanecerá por muito tempo infrutífera.