Fast Fashion não é democratização da Moda

Silvia Feola

23 Outubro 2015 | 10h28

O fato de a Riachuelo colocar à venda, logo após o desfile, a coleção cápsula da estilista Lethicia Bronstein, que traz produtos que teoricamente pertencem à coleção outono/inverno 2016, deveria nos dizer alguma coisa.

O fato de essa ser uma coleção apresentada na São Paulo Fashion Week, deveria dizer muito mais.

Fato inédito no Brasil – mas não na Europa, em que a Moschino coloca à venda seus produtos durante o desfile – a mescla do fast fashion ao conjunto de elaboradas produções pode ter consequências sobre o futuro da moda como arte, como uma elaboração artística do nosso cotidiano que se mostra na passarela.

No tempo das nossas avós, ter aquilo que estava na moda a preços módicos significava fazer a própria peça em sua máquina de costura. Muitas mulheres sabiam costurar e tinham tempo para isso. Hoje, no nosso mundo maluco e acelerado, muitas das nossas atividades diárias foram terceirizadas e passamos a conviver com a industrialização dos produtos como algo natural, da moda à alimentação.

A compra de peças sazonais mal-fabricadas pode não fazer diretamente mal à nossa saúde e não ser um fenômeno tão grave como foi a precarização da alimentação, mas com certeza faz mal ao nosso orçamento e ao nosso guarda-roupa.

Como a grande maioria dos tecidos que compramos vem da China (às vezes mesmo quando adquirimos produtos de marcas bacanas) a vida útil desses itens é baixa; grande parte rasga sozinho num tempo muito curto. Além disso, o impulso de consumo torna as peças obsoletas em pouco tempo, já que a ideia é produzir coisas que imprimam sua efemeridade, que saiam de moda no curto prazo, a fim de que mais peças se tornem objetos de desejo.

A aceleração do processo da moda afeta gravemente o meio ambiente e também a vida de milhares de trabalhadores da indústria têxtil.

Democratizar a moda não é vender objetos duvidosos a preço de banana. Democratizar seria distribuir o valor gasto na produção entre diferentes grupos sociais.

Quando incentivamos o fast fashion enriquecemos apenas uma meia dúzia de grandes empresários, donos de grandes marcas. Isso não é democratização do dinheiro.

Quando compramos fast fashion vamos a favor de todo o processo de “colonização da moda”*, que marcou a entrada de grandes marcas mundiais em países estrangeiros, acabando com a produção local.

Quando compramos fast fashion incentivamos o trabalho em condições sub-humanas em países que não têm (ou têm muito poucas) leis trabalhistas. Isso não é democratização de nada.

Democracia não tem nada a ver com o fato de que você pode comprar mais itens e, por isso, descartá-los mais rapidamente. Democracia não é posse, mas direito. E se quisermos entender que temos direito a ter mais e mais coisas, de que vale ter objetos sem qualidade? Falar em democracia quando se fala do acesso a coisas propositalmente descartáveis parece mais um artifício para justificar a exploração do trabalho e da natureza, e para apaziguar os ânimos dos excluídos das altas esferas.

Mas ir contra tudo isso é mudar um comportamento muito intrincado na nossa cultura, que acredita que posse e felicidade são termos intercambiáveis.

Para citar Hector Babenco, muito se fala hoje de soluções políticas e sociais (de certo modo sobrevalorizando demasiadamente o sentido de ter), “mas se esquece da beleza”.

A apreciação da beleza por si só, sem tê-la em nossas mãos, é hoje algo que beira o inimaginável.

 

 

 

* Essa informação devo a Renato Cunha, do blog Stylo Urbano.