Crises unidas fizeram o Brexit vitorioso

Crises unidas fizeram o Brexit vitorioso

Silvia Feola

24 de junho de 2016 | 08h01

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Crises em áreas distintas, mas interligadas entre si, unificaram o resultado do referendo de ontem, 23 de junho de 2016, que aprova a saída do Reino Unido da União Europeia.

A crise econômica, a crise da imigração, e a crise da representatividade.

Numa mesma linha, dois termos antes consonantes agora se contrapõem: Reino Unido e União Europeia.

O resultado do plebiscito, defendido e comemorado por partidos e figuras políticas nacionalistas e de extrema-direita na Europa – mas não só – foi enaltecido como “a liberdade inglesa em relação à Europa”.

Difícil imaginar como fica o futuro dos países com fortes movimentos separatistas internos daqui por diante, Grã-Bretanha inclusive.

Em 2014, a Escócia votou pela sua permanência como membro do Reino Unido, e a década de 1970 presenciou um ativo e violento movimento do IRA, o Exército Republicano Irlandês que, entre outras coisas, reivindicava sua separação da coroa britânica.

Surpreendentemente ou não, nas regiões da Irlanda do Norte e na Escócia, a votação pela permanência da Grã Bretanha no bloco europeu saiu vitoriosa.

Difícil também é imaginar como a saída, a tal “liberdade” em relação ao resto dos europeus pode ser o equivalente do restauro da era gloriosa de bem-estar social.

O maior índice de rejeição à permanência no bloco foi registrado nas cidades ao norte da Inglaterra, onde o declínio da indústria acarretou a elevação do desemprego.

É compreensível querer que esse cenário mude, mas não é compreensível atribuir a responsabilidade pela situação à parceria com a União Europeia.

Em primeiro lugar, porque o campo industrial não foi majoritariamente redesenhado dentro da própria Europa; em segundo lugar, porque o desmantelamento da indústria inglesa data dos anos de governo Thatcher, como uma das consequências diretas da implementação do neoliberalismo.

De todo modo, o que está em jogo aqui não é o verdadeiro responsável pela crise econômica, que é mundial. O que está em xeque é o sonho de gerações de que uma maior integração entre os povos é possível.

A tese de que “a culpa é do estrangeiro” permanece como fato inabalável.

Outros caminhos, outros arranjos político-econômicos poderiam (e ainda podem) ser possíveis dentro da comunidade europeia. Mas a escolha pela saída mostra como, para a maioria de nós, seres humanos, proteger-se é o mesmo que proteger-se do outro.

Prova disso é que o discurso anti-imigração foi um dos que mais repercutiram sobre o resultado do referendo britânico.

Análise política do The Guardian dessa manhã aponta também que a votação pela saída da União Europeia é um sinal claro de que os britânicos nunca sentiram que essa fosse uma união aprovada, sancionada por eles; e que os dirigentes do bloco europeu lhes soam absolutamente alheios.

É a crise da representatividade, que atinge o mundo em proporções históricas.

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