O diálogo da moda

O diálogo da moda

Silvia Feola

08 Outubro 2015 | 10h09

instalife

(Na foto acima, o desfile é visto pela lente do iPhone)

Chegou ao fim a temporada de moda Primavera Verão da Europa e NY. E, claro, não sem polêmica.

Ainda que tenha feito uma coleção incrivelmente bela, a Valentino sofreu duras críticas por colocar na passarela majoritariamente modelos brancas representando “a rica cultura africana”.

Saint Laurent e Dior também provocaram olhares avessos ao vestirem adolescentes esquálidas com as roupas que as “mulheres reais” deverão comprar.

Nenhumas dessas situações citadas é novidade. E, no entanto, a introdução do novo é justamente o papel da própria moda; sua definição por excelência.

Por isso, é curioso pensar que a mais significativa mudança recente será introduzida na moda a partir de cima. Uma lei do governo francês, que tem tudo para ser aprovada em breve, fará com que os ateliês do país sejam obrigados a colocar na passarela modelos com perfis mais saudáveis (com IMC de 18). No caso do Brasil, já há algum tempo circula uma proposta de cota para modelos negros, ainda em discussão.

Logo, é difícil não achar válida a crítica do filósofo norueguês Lars Svendsen ao lugar que a moda ocupa atualmente. Ele afirma que, num contexto em que a modernidade se vê cada vez mais como uma autodeterminação racional, a moda tem representado a mudança simplesmente pela mudança, isto é, sem qualquer fato social, político, econômico, ou mesmo cultural, que dê um verdadeiro embasamento ao que é introduzido como novo.

É difícil negar que a moda mais faz uma autopropaganda quando afirma que absorve e muda os padrões sociais, do que de fato opera desse modo.

Raramente a moda consegue exercer um olhar crítico ou criativo sobre o que de fato acontece. E mesmo quando o faz, não segue nenhum padrão de repetição ou necessidade.

Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel, é o que mais se aproxima disso. Geralmente faz brilhantes shows com base em fatos interessantes e completamente atuais (como o desfile-protesto do ano passado ou a passarela-aeroporto, em que a vida e a moda se encontram en passant; ou o desfile que terminou com um casal de noivas na passarela). Contudo, até mesmo ele surge de repente com algo como a coleção Resort desse ano, cujo tema foi a Coréia do Sul. A escolha foi apenas uma bela homenagem à Coréia; legal, mas sem propósito.

Stella McCartney também se destaca por sua defesa em produzir itens ecologicamente sustentáveis, com a garantia dos devidos direitos daqueles que trabalham na indústria da moda.

Mas eles são a minoria.

Assim, o discurso de que a moda representa, dialoga, e até mesmo transforma a nossa realidade social, é apenas parcialmente verdadeiro.

Mas o fato é que não existe lugar melhor para que isso aconteça.