O novo velho do governo Temer

Silvia Feola

18 Maio 2016 | 14h04

Os novos-velhos planos do governo Temer estão representados em cartaz pela bandeira do Brasil, cujo lema – “Ordem e Progresso” – foi inspirado na filosofia positivista de Augusto Comte.

No âmbito filosófico, o positivismo refere-se ao termo “ordem” como uma ordem das ideias, a rigidez e ordenação do pensamento que apenas a ciência é capaz de dar e que seria a responsável por promover os avanços da natureza humana.

Um pouco inspirada no Iluminismo, a filosofia positivista data do início do século XIX.

Ainda que fale muito em ordem, o positivismo não trata de ordem social nos moldes em que a concebemos hoje.

Para além disso, a ideia de que da ordem necessariamente gera-se o progresso parece um pouco equivocada.

Não vejo como o futuro poderá surgir espontaneamente da ordem. Antes, ele deveria ser o sentido de toda a ordenação.

Mas como é possível pensar em futuro hoje se todas as pautas progressistas foram jogadas de escanteio?

O slogan de governo “Uma ponte para o futuro” mais parece levar a futuro nenhum. Certamente não representa o futuro do feminismo, nem o futuro das minorias, nem o futuro da cultura e da educação (porque apesar de tudo, isso eles entenderam corretamente: educação e cultura andam juntas, ainda que não devessem compartilhar a mesma pasta).

Tampouco esse é o futuro da saúde pública, e desde o início dessa semana também não é o futuro da Constituição. Ou melhor, trata-se do futuro da nossa carta, mas para dizer que a Constituição traz direitos demais.

De acordo com o novo ministro da saúde, Ricardo Barros (PP-PR), o país não vai “conseguir sustentar o nível de direitos que a Constituição determina”.

Você pode até acreditar que a inciativa privada tenha seu valor como colaboradora da manutenção do Estado. Mas de modo algum pode eximir o Estado de suas responsabilidades para com seus cidadãos.

Afinal de contas, para que serve toda a ideia de Estado-nação, a partir da qual surgiu a nossa bandeira?

Um pouco contraditório, já que essa é a mesma bandeira cujo emblema o governo em exercício usa para exaltar suas novas-velhas ideias.

Sob o governo Temer, Cazuza nunca esteve tão atual. “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”.