Os limites de uma moda ética

Silvia Feola

26 de maio de 2016 | 12h38

Como afirma Marina Colerato, criadora do Modefica, não é possível pensar em moda verdadeiramente sustentável sem antes repensar o sistema.

É provável que a equação que não fecha entre o tamanho da demanda e a escassez de recursos seja um problema que atinge o sistema capitalista como um todo, não apenas no âmbito da moda.

O mesmo site trouxe essa semana uma ótima entrevista com a jornalista Tansy Hoskins, na qual ela afirma que todas as ações disponíveis aos indivíduos dentro do sistema o direcionam a “comprar” um mundo melhor.

Em suma, o capitalismo sabe como abraçar os novos tempos como ninguém, dando a ele sempre um ar de charme e renovação.

É o que vem acontecendo, por exemplo, com o conceito de “moda ética”.

Grandes corporações – famosas ou por empregarem trabalho escravo ou por provocarem altos níveis de poluição ambiental, ou por ambas as coisas – vêm tentando reformular sua imagem dentro do marketing do greenwashing, ou “repaginada verde”.

Imprimindo à marca uma inciativa ou outra que visa uma maior sustentabilidade, essas grandes empresas tentam mostrar que se importam com o meio ambiente e com a vida dos seus trabalhadores no outro lado do mundo.

Mas as coisas não são tão simples assim. A mudança não vai acontecer a partir das atitudes superficiais e vagas dos grandes conglomerados.

Como mostra o linguista, filósofo, historiador, crítico social e ativista político Noam Chomsky, no documentário disponível na Netflix “Réquiem para o sonho americano”, a dinâmica do atual modelo capitalista foi pensada pelos donos do dinheiro unicamente para maximizar os lucros.

A desvalorização da manufatura e da produção foi feita em prol da valorização do mercado financeiro, a partir da alegação de que os bancos eram o verdadeiro seguro dos trabalhadores e donos de empresas: tanto como guardiões do dinheiro, quanto como fiadores do crédito.

Isso, aliado à realocação da produção para outras partes do mundo –substituindo trabalhadores locais por operários superexplorados, aumentando o lucro e deixando todos os trabalhadores inseguros, um modo perfeito de diminuir o poder sindical e as greves – foi o combo perfeito para ampliar a concentração de renda e, com isso, o tamanho da desigualdade social.

Para fazer da sociedade um sistema, isto é, um todo organizado, o direcionamento coletivo foi em torno do consumo. Somos todos consumidores e é isso o que nos une, em primeiro lugar, como sociedade.

A medida de uma vida decente é, então, dada pelo o que você compra, pelo quanto você compra, por comprar coisas que não precisa e que eventualmente vai jogar fora.

Toda a fala de Chomsky é sobre o sistema geral que organiza a sociedade norte-americana. Mas pode muito bem ser transposta para o sistema da moda como um todo. Afinal, a moda é parte do capital.

No fim, a entrevista de Noam Chomsky termina num tom reformista e diria até mesmo intuitivo: a única solução possível para já são os pequenos atos individuais que podem se tornar coletivos e mudar um pouco o rumo das coisas.

Ainda que essa não seja uma proposta revolucionária, não podemos esquecer que mudanças importantes nos direitos civis, por exemplo, surgiram a partir de atos da sociedade civil organizada.

Do mesmo modo, mudanças no modo como o sistema da moda opera podem nascer de pequenas atitudes e exigências dos consumidores e de quem faz.

Se não há meios de existir uma moda sustentável, talvez devêssemos nos permitir pensar nisso apenas como uma moda mais consciente.

 

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