Polêmica do véu de volta na França

Silvia Feola

13 Abril 2016 | 11h09

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, reacendeu polêmica ao sugerir que o véu islâmico deveria ter seu uso banido das universidades do país, e ao afirmar que, na opinião da maioria da população, a religião islâmica tem valores que não condizem com os da república francesa.

Bem, a questão do véu é antiga e o debate está longe de ter sido resolvido.

Ok, seria mesmo incrível viver num país em que a laicidade fosse o valor mais importante. Só que embora a cruz tenha sido banida de certos espaços públicos na França, tal como o véu, a república francesa ainda faz de datas comemorativas católicas feriados nacionais.

Então, fica a dúvida: até que ponto é possível que nós, seres humanos cuja religião exerce grande papel cultural, sejamos capazes de viver em um país completamente laico?

Até que ponto o véu é uma imposição cultura que nós ocidentais – de fora, como cultura estranha – devemos agir para mudar? Até que ponto nos colocarmos nessa questão, dado que agindo como ‘salvadores’ das mulheres islâmicas, agimos como cultura superior, que sabe melhor o que impor ou não às suas mulheres? Até que ponto a lei do véu na França não fere as liberdades individuais, religiosas, que foram duramente conquistadas lá atrás, no período pós-inquisição?

A questão é que, ainda que nós possamos fazer a crítica do uso do véu como uma obrigação, que essas mulheres se encontram coagidas a exercer desde muito cedo, ainda cabe considerar que são muitos os relatos femininos de que o véu lhes dá respeito e dignidade.

Ok, não deveria ser necessário o uso do véu para que uma mulher consiga uma vida de respeito e dignidade. Deveríamos usar as roupas e os acessórios que bem entendêssemos e ponto.

Mas fica a pergunta, em que medida nós mulheres do Ocidente também não estamos constantemente agindo sob fundamentos culturalmente impostos, sempre (mesmo que indiretamente) em busca desses mesmos valores?

Porque assim como elas, nós também sempre procuramos meios de sermos respeitadas num mundo predominantemente machista e patriarcal. Assim como elas, nosso vestuário está carregado de símbolos culturais e religiosos, repletos de significados do modo como queremos ser vistas.

É um ponto complicado mesmo.

A questão do véu como um conflito entre imposição cultural x liberdade religiosa é um reflexo direto com a questão da relação delicada traçada entre o islã e o Ocidente nesse momento, devido aos recentes atentados terroristas na França e Bélgica.

O islã tem sido usado como a arma política de grupos extremistas, tanto na justificativa de suas ações quanto como meio de recrutar jovens muçulmanos para a jihad. Mas isso também parece um mau uso da fé e da religião, intencionalmente má interpretada para ampliar o conflito e abrir espaço para uma guerra cultural silenciosa, dentro da qual o debate sobre o véu está inserido.

Colocar as pessoas contra uma determinada religião facilita a disseminação de coisas como xenofobia e preconceito. E torna os jovens excluídos os alvos mais fáceis de serem atingidos pelos recrutadores do Estado Islâmico, que de islã mesmo, remete só ao nome, a título de marketing.