Por que a alimentação francesa nos mobiliza

Por que a alimentação francesa nos mobiliza

Silvia Feola

14 Agosto 2015 | 12h03

cantine

 

É estranho a uma sociedade democrática restringir, mesmo que parcialmente, o direito de que todos possam exercer suas identidades pessoais, culturais e/ou religiosas.

A questão é que, por princípio, o Estado de direito representa tanto garantias quanto cerceamentos.

Qual liberdade deve prevalecer sobre a outra, a do indivíduo ou o conceito de liberdade compartilhado pelo coletivo?

Embora esta seja uma questão complicada, um livro despretensioso como o Crianças francesas comem de tudo, de Karen Le Billon, abarca indiretamente o conflito, da perspectiva da alimentação escolar.

As refeições das escolas públicas francesas são regulamentadas por rigorosas normas do Ministério da Educação, entre as quais determina a proibição de máquinas de vendas no espaço escolar.

A autora conta que, de volta ao Canadá depois de um ano morando na França, o que mais a surpreendeu foi perceber o quanto os hábitos alimentares das escolas canadenses eram distantes da práticas francesas.

No país norte-americano, as escolas não se responsabilizam pelo almoço coletivo. Como devem trazer de casa as refeições, o almoço acaba sendo, na maior parte do tempo, um lanche frio.

Inconformada, diante do parâmetro que trazia da França, Karen resolveu fazer uma pesquisa com vários outros pais, na tentativa de descobrir se eles, tal como ela, sentiam-se incomodados pela má qualidade da alimentação dos filhos.

Todos concordavam que com a ideia de que um almoço quente era uma demanda necessária. Por outro lado, quase todos temiam a possibilidade de que, se a escola ficasse responsável pela refeição das crianças, estas fossem obrigadas a comerem todas as mesmas coisas, de forma que gostos pessoais e costumes religiosos não seriam respeitados.

Foi quando a autora percebeu que, ao tomar para si o cuidado com a alimentação escolar, o governo francês resolvia os conflitos particulares (de cada família) instituindo hábitos coletivos, que incentivavam as crianças a desenvolverem um paladar mais variado.

A ideia de oferecer uma única refeição comum a todas as crianças soava, para os pais canadenses (e alguns estrangeiros), como uma atitude autoritária que ia contra práticas individuais. Para o governo francês, oferecer uma mesma refeição a todos significava uma cessão da liberdade individual em prol de um bem coletivo; uma atitude necessária se o objetivo é existir como uma nação.

É interessante pensar como, em pequenas questões do dia-a-dia, o conflito entre as exigências privadas e a necessidade de regras gerais, que abarque a todos, estão sempre presentes. Cabe a nós decidirmos até que ponto devemos ceder em vista de um projeto comum.