América em crise com seus aliados

América em crise com seus aliados

Silvia Feola

16 de junho de 2015 | 12h22

selinameyerzzz

 

Pior do que lidar com seus inimigos, é ter que lidar com as relações tensas com seus principais aliados.

O que virou piada no seriado Veep, comédia política em cartaz na HBO, com Julia Louis-Dreyfus, sobre os dilemas da presidente americana Selina Meyer.

Num episódio da temporada recente, um dos assessores liga para a presidente para a informar de que há previsão de uma grande tempestade no país.

Sem entender que se trata de um verdadeiro furacão, Selina Meyer de pronto questiona: “Você está falando sobre Israel ou China?”

Os Estados Unidos estão em crise com seus principais aliados no Oriente Médio, Israel e Arábia Saudita.

A persistência do atual governo israelense em manter os assentamentos judaicos nas terras ocupadas e as suspeitas de que Riad (Arábia Saudita) foi e é um grande financiador da jihad, que acabou por dar origem ao Estado Islâmico, certamente contribuíram para a atual situação.

Mas o problema foi ampliado sobretudo pelas atuais políticas norte-americanas em relação ao Irã.

O governo Obama tenta resolver os impasses com a nação xiita pela via diplomática, a fim de evitar a todo custo entrar diretamente em um novo conflito no Oriente Médio.

E nisso ele está plenamente em sintonia com o povo norte-americano.

Segundo pesquisa da Survey Monkey, a porcentagem da população que acredita que os Estados Unidos devam se envolver diretamente em conflitos internacionais é muito menor do que aquela que acredita que os norte-americanos não devem ambicionar um papel de grande protagonismo internacionalmente.

Após a crise de 2008, os norte-americanos estão, de modo geral, muito mais preocupados em cuidar da casa do que se aventurar lá fora.

Além disso, vale notar que a porcentagem da população que é a favor de um maior envolvimento do país nas questões de outras nações está centrada na camada da população com mais de 60 anos: mostra que a tendência é de que os americanos ainda acabem por delegar por um bom tempo ao campo diplomático a resolução de conflitos políticos que, para muitos, não lhes dizem respeito.

Por isso, a questão com o Irã não interfere apenas no modo como os israelenses e sauditas veem a atual posição de seu antigo aliado. Ele afeta também o modo como os americanos veem a eles.

É uma via de mão dupla: os dois lados anseiam para que suas demandas sejam atendidas. O problema é que aspiram a coisas diferentes.
No que tange à Arábia Saudita, o ex-senador Bob Graham diz que as 13 páginas secretas do dossiê da CIA sobre o 11 de setembro têm muito a dizer – e a mudar – sobre as relações dos Estados Unidos com o país.

Quanto a Israel, a situação tem se tornado tão delicada que, de principal aliado, as relações com o país tornou-se um dos principais problemas no terreno da política interna e externa.

O tamanho do comprometimento do país em relação à nação israelense volta a ser objeto de debate entre os presidenciáveis de 2016. Os defensores incondicionais de Israel enfrentam as críticas daqueles que acreditam que o governo israelense não tem demonstrado boa vontade em agir em uníssono com seu mais importante aliado, do mesmo modo que os críticos de Israel são acusados de enfraquecer o elo mais importante dos EUA com outra nação no mundo.

Talvez a questão no fundo seja sobre quem é o maior, ou quem pertence a quem.

O ato-falho de Selina Meyer não deixa de ser relevante: a China é hoje o principal adversário dos norte-americanos (e a palavra é de fato oportuna) no campo político e econômico.

É claro que Israel não está em vias de se tornar um adversário dos Estados Unidos.

Mas há alguns anos ninguém imaginaria que o país pudesse ecoar um problema tão grande quanto o chinês.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: