“Que horas ela volta?” conta nossa história

Silvia Feola

15 Setembro 2015 | 11h24

O filme de Anna Muylaert é um dos poucos filmes brasileiros que contam a nossa história. Nossa história como país e como sociedade.

E não faz isso apenas porque é um filme que reflete sobre nosso passado escravocrata, que nos faz até hoje dependentes das relações patrão e empregado.

Mais do que isso, o filme conta a estória de seres humanos inseridos num tipo de organização social que inevitavelmente promove a construção de relações de poder, que surgem entre nós quando uma parte ganha mais do que a outra, quando uma tem mais do que a outra.

E o mais maluco é que cada um sabe o seu lugar no arranjo. Ou, pior ainda, deveria saber.

Mas acontece que, porque somos seres humanos, nenhuma dessas relações de poder, por mais conscientes que sejam, saem ilesas do toque dos sentimentos. Relações tão próximas acabam produzindo laços afetivos, que se misturam confusamente na disposição das coisas.

Mas ainda mais do que tudo isso, o filme é a história da vida de uma mulher que é mãe, nesse mundo, no tempo e espaço do Brasil atual.

Val termina a estória duplamente vitoriosa: a filha, no fundo, só foi capaz de chegar onde chegou por causa dela, e até por isso, a mulher não vai deixar que a menina repita seu ‘erro’.