Roupa sem gênero na escola e em casa

Roupa sem gênero na escola e em casa

Silvia Feola

27 de setembro de 2016 | 14h33

Na semana passada, o Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, publicou em seu site que o uniforme escolar da instituição não seria mais separado por gênero. Na prática, isso significa que o uso de saia e calça está liberado tanto aos meninos quanto às meninas.

Em nota, o reitor afirma que cumpre uma resolução vigente e que, com isso, a escola procura “de alguma maneira contribuir para que não haja sofrimento desnecessário entre aqueles que se colocam com uma identidade de gênero diferente daquela que a sociedade determina”.

Mas o alcance da medida não abarca apenas aqueles que não se identificam com os padrões definidos de gênero, ainda que esse seja um ponto importantíssimo.

Mudanças sociais recentes permitiram que a indústria do vestuário trouxesse à tona a moda “sem gênero”.

É uma via de duas mãos. É claro que é interessante para a indústria potencialmente conseguir, com uma única peça, o dobro de seu público.

Mas é bem provável que os consumidores também mostrem cada dia mais interesse em itens que minimizam os tradicionais estereótipos do masculino e feminino no vestuário.

A moda “sem gênero” é, na verdade, a flexibilização desses padrões.

E se a indústria se movimentou nesse sentido, é porque foi capaz de encontrar uma resposta positiva daqueles a quem atendem.

No Brasil, as marcas infantis que exploram a linha “sem gênero” relatam que há sim uma mudança em curso. Essas marcas apostam em cartelas de cores e modelagens mais neutras: menos rosa e florais para as meninas, mais linhas na modelagem para os meninos e, por vezes, a mesma estampa para ambos os sexos são alguns dos exemplos do que essas marcas propõem.

Celina Cabral, da marca de roupa e lifestyle infantil Iglou Kids, percebe que a busca de roupas “sem rótulos” ainda é feita por um grupo muito restrito de pais. “Como surgimos dentro de um movimento de pequenos negócios que se encontram em feiras independentes, que tem muita ligação com design e arte, acabamos construindo um público que entende mais e busca mais produtos assim”.

Lila Colzani, criadora da Colcci e hoje diretora criativa da marca infantil Pistol Star, afirma que muitos lojistas se surpreendem ao perceberem o giro de vendas, principalmente das peças ditas “unissex”. “O consumidor está bem mais aberto a uma proposta não convencional de moda para crianças do que a gente imagina. Claro que a grande maioria ainda não consegue assimilar a ausência de ‘pré-requisitos definidores de gênero’, mas acho que é uma questão de tempo”, acredita.

Fabiana Zurita, do Ateliê Cui Cui, também é otimista em relação à mudança dos pais na hora de comprarem roupas para seus filhos. “Às vezes olham a arara e falam ‘ah, é só roupa de menino’, como se menina não pudesse usar azul, por exemplo. Por outro lado, tenho vendido cada vez mais leggings para meninos. No verão passado, tive uma saruel pink com desenho de flamingos e fiquei feliz de vendê-las para ambos os sexos”.

As leggings também são sucesso para ambos os sexos na marca Mini.mi Estúdio. Focada em crianças de 0 a 3 anos, a diretora de estilo, Adriana Farias, vê boa aceitação dos pais em relação aos produtos, que são os mesmos para meninos e meninas.

Já Daniela Shiguematsu, da marca Minimals, concorda que há uma mudança de comportamento dos pais, especialmente das mães, que buscam fugir principalmente da clássica cartela de cores rosa e azul. Contudo, ela aponta para o fato de que as crianças escolhem o que vestir cada vez mais cedo e são mais suscetíveis ao papel que os filmes, desenhos e amigos exercem nesse sentido. “Ao mesmo tempo vejo aumentar bastante a quantidade de crianças que não ligam para isso. No inverno, a peça que mais vendo é um moletom unissex que faço desde a primeira coleção, apenas mudo a estampa, mas sempre com a mesma cara: cinza mescla com ponto, botões e estampa pretos”.

O que todas essas marcas têm em comum é a busca por produzir roupas mais democráticas para crianças.

iglou

Fronha para travesseiros da Iglou

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Jaqueta prateada unissex da marca Pistol Stars

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Regata Constelação, para meninos e meninas, do Ateliê Cui Cui

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Jumper de listras para ambos os sexos do Mini.mi Estúdio

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Moletom unissex da marca Minimals