Série conta história do capitalismo e da moda

Série conta história do capitalismo e da moda

Silvia Feola

07 Abril 2016 | 10h41

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Mr. Selfridge, série da BBC disponível na Netflix até a terceira temporada, consegue ir além da mera vida pessoal dos personagens, dando boa exposição – como pano de fundo – à introdução de um novo tipo de capitalismo na Europa e às mudanças sociais das primeiras décadas do século XX.

Harry Gordon Selfridge foi um norte-americano que emigrou para Londres no fim dos anos de 1900, com o intuito de abrir uma loja de departamentos que cobrisse o que ele identificou como uma lacuna de mercado. A Selfridges abriu em 1909, na Oxford Street, com uma nova proposta comercial.

Até então, fazer compras era visto na Inglaterra (e em toda a Europa) como uma tarefa maçante, relegada àqueles que não tinham dinheiro suficiente para serem atendidos em suas próprias casas por modistas, costureiros e alfaiates, por exemplo.

A nova loja de departamentos surgia para subverter essa lógica, e tornar o consumo uma fonte de prazer às mãos de quase qualquer um. A preocupação em atingir uma grande fatia do mercado interno inglês fez com que o empresário variasse o tipo e os preços dos produtos, a fim de ganhar um público mais amplo.

Outro grande ponto é o investimento na elaboração das vitrines da loja, carro-chefe da aparência do local e que deveria refletir suas propostas de venda.

Tudo isso visa mostrar a aplicação do modelo da sociedade de consumo norte-americana na Europa.

Mas Harry Selfridge traz consigo mais do que a mudança no varejo. Os novos valores capitalistas norte-americanos também continham uma boa dose de progressismo social em relação aos de sua ex-colônia. Isso fica claro na série em pequenos pontos debatidos aqui e ali.

Com o passar do tempo e a explosão da Primeira Guerra Mundial, as mulheres tornam-se a força de trabalho dominante na Inglaterra (e em toda a Europa atingida pelo conflito) no lugar dos homens.

Uma época em que o feminismo fez grandes avanços, inclusive no vestuário. O fim do espartilho, proposta que já havia surgido como vanguarda na moda com Paul Poiret antes de 1910, ganha adeptos na grande massa. É que esses, junto com as saias muito longas, não davam espaço ao trabalho braçal necessário na época.

A impressão que temos é a de que a colônia, representada pela figura de Harry Selfridge, simbolicamente traz os avanços para o velho mundo, porque pode se dar ao luxo de quebrar as regras sociais com maior facilidade. Dar início a um “novo mundo” parece também poder criar novas regras.