Série The Crown e o peso da coroa

Série The Crown e o peso da coroa

Silvia Feola

18 Novembro 2016 | 11h28

thecrown

 

A série The Crown (Netflix), ainda que inspirada na vida da rainha Elizabeth II, é na verdade, como o próprio nome diz, sobre a coroa ou, mais propriamente, sobre o peso que ela traz.

O fio-condutor é o conflito entre a vida pessoal da rainha e as obrigações ligadas ao cargo.

A partir do momento em que assume o trono, ela passa a ter de conviver com a cisão entre a Elizabeth Windsor e a Elizabeth Regina que se tornou.

Ainda que os membros da família real sejam hoje verdadeiras celebridades, o que importa numa monarquia não é exatamente quem a compõe, mas a conservação daquilo que carregam: a coroa.

O papel da monarquia é dar sentido e estabilidade à nação, preservando os domínios unidos e fortes.

E quem é a monarquia, a não ser a coroa? Por isso governar como realeza é saber responder à coroa.

Ao contrário das escolas de princesa que existem por aí – focadas no ensino dos “bons costumes” – uma verdadeira princesa é educada para governar. Isso significa não apenas saber sobre política, mas saber tomar decisões com o peso de manter a monarquia como instituição, pois o verdadeiro suporte da nação é a monarquia.

Como a responsabilidade do monarca não deriva de uma eleição, ele é como um representante na terra de uma “ordem maior”, quase de um desejo divino.

Não é à toa que, ainda hoje, o chefe de governo no Reino Unido é também o chefe da Igreja Anglicana.

Logo, manter a monarquia forte é preservar o seu caráter simbólico no imaginário coletivo. A aura em torno daqueles que carregam a coroa precisa permanecer intacta.

Para isso o silêncio é a arma mais eficaz: ele garante a distância necessária para que a monarquia nunca seja personificada e, com isso, mantenha-se inatingível.

O silêncio está nas poucas e medidas palavras e também nos trajes duros e simbólicos. O príncipe em seus uniformes militares, a rainha em suas roupas sóbrias.

A única personagem – na série e na vida real – mais moderna no vestir é justamente a irmã, cujas responsabilidades para com o trono são bastante limitadas.

Assim, a liberdade daquele que carrega a coroa é sempre cerceada pelo peso de conservar as tradições, que são evocadas não em nome dos “bons costumes”, mas a fim de manter a coroa intocável.

Afastando-se do mundano, é possível manter o distanciamento necessário para assegurar sua aura espiritual.

No fundo, o que mantém a monarquia viva é a própria crença na monarquia, na mitologia que a circunda.

Como afirma o personagem do tio de Elizabeth, Eduardo VIII, rei que abdicou ao trono para se casar com uma norte-americana plebeia e divorciada, a coroa e a coroação em si servem para dar aura espiritual e endeusar alguém que não necessariamente se sobressai perante os outros.

A série é interessante porque aborda um dever cívico que estamos longe de compreender.