Uber X taxistas: o que a esquerda não vê

Silvia Feola

22 de fevereiro de 2016 | 11h09

No momento, o Uber ganha cada vez mais adeptos, cheios de elogios aos serviços do aplicativo. O fato de a “frota” de motoristas ser formada majoritariamente por gente jovem trouxe um ar bacana com o fim do papo malufista das corridas de táxi. Os copinhos de água oferecidos nas corridas, gentilezas típicas de uma empresa em ascensão que precisa de novidade para atrair novos tipos de clientes, também são bem vistos. A avaliação dos motoristas feita logo após a corrida garante ao aplicativo a manutenção da qualidade da “frota” e dá ao cliente a sensação de que será sempre bem atendido.

A maior parte das pessoas que utiliza o aplicativo Uber está tão encantada que não parece perceber o que esse tipo de serviço traz de inovador por trás de toda a sua tecnologia, suas gentis ofertas de copinho de água e atendentes simpáticos.

A retórica que defende a empresa alega que o Uber representa o fim do monopólio de um setor inteiro de serviços de transporte de passageiro, o do táxi, e afirmam isso como algo inteiramente positivo, sem qualquer ressalva.

Porém, vale lembrar que, ainda que o táxi tenha muitos problemas – como compartilhamento de licenças, pouca verificação do implemento das normas, etc. – o serviço possui uma regulamentação própria, que visa garantir maior segurança e direitos, tanto aos taxistas quanto aos seus clientes.

O Uber (ainda) não.

O aplicativo cadastra o motorista, faz a conexão com seus possíveis clientes e toda a transação financeira é efetuada e taxada por ele. Mas mesmo sendo o principal negociador da operação, o aplicativo não tem qualquer responsabilidade sobre a corrida, assim como qualquer tipo de vínculo empregatício com seus motoristas cadastrados.

O motorista particular e autônomo do Uber arca sozinho com absolutamente todas as despesas e riscos que envolvem seu trabalho. Embora tenha a liberdade de trabalhar quando e quanto quiser, o motorista do Uber não vê de volta todo o lucro proposto pela teoria da economia compartilhada, da qual teoricamente é parte.

É que ninguém trabalha para o Uber, mas através do Uber.

Logo, os motoristas cadastrados não possuem nenhum tipo de direito trabalhista, ao contrário dos taxistas, que desde 2011 têm todos os direitos garantidos pela CLT.

Visto dessa perspectiva, por trás de toda a retórica de inovação tecnológica e de economia compartilhada, o Uber traz um novo formato de capitalismo, que mina as responsabilidades daqueles que verdadeiramente ganham com o trabalho de outros que, embora associados a eles, são considerados “autônomos e livres”.

Em termos de relações trabalhistas, o Uber abre as portas para um novo comportamento que exime as empresas de qualquer tipo de encargo com seus funcionários.

Só que o verdadeiro trabalho autônomo garante ao trabalhador total lucro sobre seu trabalho. No caso da autonomia do motorista do Uber (assim como de novos serviços de entrega de bicicleta que estão surgindo na Europa, por exemplo), todos os riscos e apenas parte do lucro vai para quem de fato trabalho.

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