Uniformes: das babás aos políticos

Silvia Feola

29 de março de 2016 | 10h58

Desde os primórdios do adereço e da própria criação do conceito de moda, nascido no início da era do capital, a roupa sempre serviu para marcar uma distinção, seja essa de tribo, clã, povo ou, nos tempos mais recentes, classe social.

Se, inevitavelmente, o modo como nos vestimos carrega um sentido, uma linguagem própria, então nada mais útil para demarcar nossa posição do que os trajes específicos para cada ocasião.

Não é à toa que as mulheres usam – a partir de uma imposição implícita ou não pelas regras sociais – salto alto em empresas onde ocupam cargos importantes, por exemplo. O salto traz a ideia de que o tipo de trabalho que essa pessoa opera é certamente burocrático, e não manual; também nos permite ler que trabalha com certo conforto, provavelmente sentada.

Mas esses pequenos signos cotidianos talvez façam muito pela separação dentro da nossa sociedade.

Talvez sejam mesmo inevitáveis em qualquer país de qualquer região do mundo. Mas vale questionar o quanto eles estão presentes no Brasil de modo a segregar as diferentes classes sociais.

Não sei de nenhum estudo aprofundado sobre o assunto, mas tampouco conheço algum outro lugar do mundo em que as babás usam branco, num estilo calça e camiseta.

Os uniformes das governantas inglesas, por exemplo, não são em nada comparáveis: bastante formais, trazem a ideia de que o trabalho que exercem é mais organizacional do que propriamente braçal.

Mas se as babás e as empregadas são atingidas pelo uso do uniforme serviçal, os políticos brasileiros também caem na linha diametralmente oposta.

É inimaginável que um político no Brasil – mesmo de esquerda – use qualquer traje parecido com o do líder do Partido Trabalhista inglês, Jeremy Corbyn, por exemplo, ou mesmo a famosa jaqueta de couro do ‘rebelde marxista’ Yanis Varoufakis. O jornal britânico The Guardian fez inclusive um artigo brincando com os símbolos da vestimenta dos políticos de esquerda e o que esses representam.

Aqui, os serviçais devem estar vestidos como tais, e os políticos sempre alinhados com o seu traje de trabalho superior, condizente com seus altos cargos e salários. O minimamente aceitável é uma camisa social de manga curta.

É claro que os uniformes não vão deixar de existir e nem precisam. Mas vale pensar até que ponto esses servem para representar uma profissão ou para delimitar uma segregação.

No caso dos políticos, é válido refletir o quanto é estranho que precisemos de regras sociais de vestimenta que servem apenas para distanciar ainda mais os aqueles que exercem os cargos públicos das pessoas comuns. O nosso sistema político-partidário atual já opera tanto nesse sentido, que é quase desnecessário enfatizar a distância através das roupas.

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