A bíblia e a bala: como conciliá-las?

Geraldo Miniuci

16 de fevereiro de 2021 | 07h59

Em que medida é possível conciliar o cristianismo com a violência praticada pelos cristãos? Noutros termos, como conciliar a bíblia e a bala, considerando que o cristianismo tem como pressupostos o amor, o perdão e atitudes pacíficas, em que, no lugar de revidar-se um tapa, se oferece a outra face?

Na Rússia, são conhecidas as cerimônias nas quais os sacerdotes da igreja ortodoxa benzem armas, caças, tanques de guerra e até mísseis. No Brasil, Bolsonaro elegeu-se prometendo colocar Deus acima de todos, sinalizou que gostaria de um ministro “terrivelmente evangélico” no STF e conta com fiel apoio político de lideranças religiosas. Ao mesmo tempo, no entanto, defende que a população se arme. Aparentemente projeta construir uma sociedade formada por sujeitos que carregam a bíblia numa das mãos e uma pistola na outra, com o peito inflado de orgulho nacionalista, que coloca o Brasil acima de tudo.

Por que as pessoas religiosas não se insurgem contra a apologia da violência feita em nome de Deus? Por que permitem que se associe o nome de Cristo a ações que agridem a consciência de qualquer um que se pretenda cristão? A história está repleta de exemplos de ações violentas praticadas por cristãos, em nome do cristianismo, como as cruzadas, na Idade Média, e a caça às bruxas, no período moderno. Por mais evidente que seja a contradição entre benzer uma espada que irá matar e a não-violência contida na atitude de não revidar o tapa que recebeu e de oferecer a outra face ao agressor, por mais intuitiva que seja a incompatibilidade entre o pacifismo do cristianismo e a violência da bala, ela parece não incomodar nem as lideranças religiosas aliadas do governo federal, nem os fiéis.

Por que isso acontece? Por que se revelam intolerantes pessoas educadas para amar e perdoar?

Esse questionamento talvez possa ser encaminhado da seguinte maneira: sentimentos suscitados nas relações interpessoais como tolerância ou intolerância dependem não somente da educação que tiveram os sujeitos dessas relações, como também de suas estruturas psicológicas individuais. A aversão ao estrangeiro, o narcisismo nacionalista, que coloca não somente a Nação, como o nacional acima de tudo, a homofobia, enfim, todo um repertório de sentimentos e suas condições de possibilidade precisarão de profundo escrutínio, se quisermos entender a ascensão de líderes que se alimentam precisamente de sentimentos desse quilate.

O mesmo caminho pode ser percorrido em relação às pessoas que sentem atração por armas, desejam possuir uma, têm prazer em atirar, enfim, mantêm com a pistola uma atitude, cuja natureza precisa ser conhecida e exposta.

Sem esse conhecimento, conviveremos num ambiente cristão, em que se estimula não um comportamento condizente com o amor, o perdão e a tolerância do Novo Testamento, mas com as fantasias do Antigo, que parecem refletir uma determinada concepção divina, em que Iahweh é visto como guerreiro, senhor dos exércitos e, principalmente, como aliado de seu povo. “Somente não sejam rebeldes contra o Senhor. E não tenham medo do povo da terra, porque nós os devoraremos como se fossem pão. A proteção deles se foi, mas o Senhor está conosco. Não tenham medo deles!” (Números 14:9).

Passagens como essa podem ser interpretadas de, pelo menos, duas maneiras: num sentido condizente com o Novo Testamento, pois, afinal, para os cristãos, Antigo e Novo Testamento fazem parte de uma unidade e devem, por isso, ser lidos em harmonia um com o outro, ou, senão, lançando mão de interpretações historicamente descontextualizadas, literais e incompatíveis com o perdão e a tolerância do cristianismo. Nessa linha, os sujeitos creem num Deus capaz de retirar o amparo de suas criaturas, para beneficiar outras; num Deus que lança pragas e espalha destruição; num Deus que castiga e legitima a violência; num Deus que dá aos sacerdotes de sua igreja o poder de abençoar espadas e canhões; num Deus que aprova a violência e os instrumentos para cometê-la; num Deus, em suma, que não é amor, mas ira.

Nessa linha interpretativa, portanto, embora na contramão do que pensam muitos cristãos, podemos conciliar a bíblia com a posse de armas e o armamento da população: ignoramos o contexto histórico sobretudo do Antigo Testamento, damos interpretação literal a seu texto, procuramos falar ao instinto e não ao intelecto dos sujeitos, partimos do pressuposto que temos Deus e a verdade de nosso lado, que Deus legitima a violência e que nossas armas devem ser abençoadas, pois são o instrumento de que dispomos para defendermo-nos de bandidos que nos atacam e de subversivos que pretendem corromper nossa nação, nossa sociedade, nossos valores e crenças que nós, como indivíduos, sem sabermos bem porquê, queremos a todo custo preservar.

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