A direita, a esquerda e as prévias

Geraldo Miniuci

11 Novembro 2016 | 10h28

O que significa ser de direita? E ser de esquerda?

Não são perguntas fáceis de responder. Para entender a complexidade dessas questões, comecemos por tratar delas a partir de uma noção primitiva, em que, de um lado, por direita se entende uma determinada concepção de mundo na qual a desigualdade é essencial para que se mantenham vivas a inveja e a ambição, ambas consideradas estímulos fundamentais para a atividade econômica. A partir dessa visão, constroem-se sistemas normativos morais, políticos e jurídicos de diversos matizes, em que, numa das pontas, se encontra a direita liberal, que preza o individualismo, a propriedade privada, os direitos individuais, o livre empreendedorismo, o mérito do sujeito, não teme a concorrência, nem defende subsídios para a produção de bens ou que se peça socorro ao Estado em momentos de dificuldades.

Na outra ponta, há a extrema direita que assegura alguns valores liberais, como o direito de propriedade e a livre iniciativa, mas que, nacionalista, militarizada, violenta e intervencionista, sufoca o indivíduo em nome da nação, uma coletividade organizada sob a forma de Estado, que exige de cada membro lealdade e até mesmo sacrifício da própria vida em favor da pátria.

Entre a direita liberal e a direita autoritária, existem várias combinações possíveis de liberalismo e autoritarismo, não sendo eles de forma alguma excludentes. O Estado forte pode proteger os valores do liberalismo econômico, sufocando qualquer oposição a eles. Ainda que consagre o direito de propriedade e da concorrência, pode interferir na economia, seja concedendo subsídios à produção de bens, seja protegendo a indústria nacional da concorrência estrangeira, apenas para citar dois exemplos.

De outro lado, ser de esquerda significa esposar ideais inspirados no coletivismo e agir guiado por um sujeito coletivo e pela noção de bem comum. Se, para a direita, inveja e ambição estimulam a atividade econômica, para a esquerda, o ser humano precisa superar essas características e perceber-se como membro de uma coletividade. Em vez de competir, cooperar. O sujeito individual precisa ser reformado ou reformar-se e livrar-se daquilo que é inclusive condenado em vários códigos normativos morais e religiosos: inveja e ambição não condizem, por exemplo, com o cristianismo que muitos liberais alegam professar.

Da mesma forma que existem vários tons de direitismo, há igualmente diversos matizes de esquerdismo. Num extremo, encontra-se a esquerda totalitária, ainda dependente do Estado nacional. Nela, não há a consagração de direitos liberais, e o sujeito individual se dilui no sujeito coletivo; no outro extremo, existe apenas uma ideia ainda não realizada, que aponta para um momento em que haverá a superação do Estado nacional e de suas fronteiras e a constituição de um mundo sem classes sociais e sem propriedade privada.

As concepções que orientam políticas públicas se localizam nalgum ponto entre a direita e a esquerda. Quando, por exemplo, uma autoridade municipal prioriza o transporte coletivo, ampliando corredores de ônibus, construindo metrôs e desestimulando o uso de automóveis, pode-se dizer que esse tipo de política segue uma orientação de esquerda; quando, ao contrário, em vez de corredores de ônibus ou linhas de bonde, o poder público constroi viadutos por onde trafegarão somente veículos particulares, temos aqui uma política de direita.

Sob esse aspecto, o alcaide paulistano Fernando Haddad está mais à esquerda do ex-presidente Lula, que, por sua vez, tem algumas semelhanças com o prefeito eleito João Dória, notório defensor de valores liberais. Certa vez, em propaganda televisiva do então governo lulista, tendo-se ao fundo uma voz que narrava a ascensão social de membros das classes mais pobres, mostrava-se um homem sentado dentro de um ônibus. Após certo tempo, esse ônibus se transforma num automóvel, e o passageiro se torna motorista. Abandonou o transporte público para dirigir o seu próprio carro. Eis a concepção de progresso veiculada naquela propaganda governamental. Se imaginarmos esse motorista vestindo uma polo Ralph Lauren, teremos a realização das concepções de Lula e Dória, mas não de Haddad, em cuja orientação encontra-se a ideia mais à esquerda de que progresso não é tirar o passageiro do ônibus e vestir-lhe roupa de grife, mas colocar o motorista de automóvel no transporte público.

No Brasil, há mais semelhanças entre a direita e a esquerda, sobretudo aquela representada pelo PT, do que os dois lados talvez possam imaginar: ambos são nacionalistas, favoráveis à livre-iniciativa e à economia de mercado, embora estejam igualmente dispostos a defender o empresário nacional da concorrência estrangeira. Henrique Meirelles serviu tanto a Lula, como agora serve a Temer. Apesar de quase 14 anos no poder, o PT não libertou nem a saúde, nem a educação da lógica capitalista. O ensino superior, apenas para ficarmos com um exemplo, foi desgraçadamente mercantilizado: faculdades são abertas como quem abre um negócio do qual se espera lucro e fechadas como quem fecha um empreendimento que faliu.

Por isso, a demanda recentemente lançada para escolher, mediante prévias, uma candidatura única, de esquerda, à presidência da república, implica que se defina um mínimo denominador comum entre os participantes, capaz de assegurar não somente um nome, mas uma identidade de esquerda. Por incompetência da direita liberal, que se alia a setores não apenas conservadores, mas atrasados, questões sociais como feminismo, homofobia e racismo são bandeiras monopolizadas pela esquerda e constituem talvez o único traço de identificação própria do grupo. Se a direita se modernizar e encampar o mesmo discurso de tolerância e inclusão, a esquerda perderá o que lhe resta de identidade. Daí ser necessário um nome que não seja somente de consenso, mas que tenha concepções de desenvolvimento distintas daquela representada por um motorista e sua polo Ralph Lauren.