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A humanização do homofóbico

Geraldo Miniuci

07 de julho de 2020 | 10h42

Neste artigo, pretendo chamar a atenção para o homofóbico, aquela pessoa que tem aversão a todos que não seguem o padrão heterossexual de conduta. Nos dias que correm, conhecem-se as consequências da homofobia, mas, aparentemente, pouco se sabe sobre suas causas. Focalizam-se as vítimas, mas ignoram-se os algozes, que se perpetuam ao longo das gerações. O que pode levar alguém a desenvolver aversão, não raro doentia, contra pessoas que agem fora do padrão heteronormativo? Por que alguém se incomoda tanto com o que pessoas, conhecidas ou não, façam dentro de um quarto, sobretudo se forem do mesmo sexo? Por que alguém se incomoda com a presença, na esfera pública, daqueles que assumiram outro gênero na vida?

Respostas a essas perguntas podem ser ensaiadas na sociologia e na psicologia. Do ponto de vista sociológico, o sujeito homofóbico pode aparecer como elemento de uma coletividade igualmente homofóbica em suas ações. Conforme observei neste mesmo espaço, em “A face invisível da homofobia” (disponível em http://brasil.estadao.com.br/blogs/direito-e-sociedade/a-face-invisivel-da-homofobia/), existem dois tipos de sujeitos nas ações homofóbicas: de um lado, os sujeitos individuais, isto é, a pessoa dos agressores e a pessoa das vítimas; de outro, os sujeitos coletivos, a saber, a coletividade homofóbica e a coletividade LGBTQI+. Se a existência da coletividade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais demonstra-se na própria sigla que designa o grupo, formado no contexto de lutas por tolerância e reconhecimento, a existência de um sujeito coletivo homofóbico revela-se sobretudo naqueles danos que não podem ser causados por apenas uma pessoa. São principalmente danos morais sofridos pelas vítimas, resultados de agressões vividas ao longo da vida, e não somente aqui ou ali, esporadicamente. As taxas relativamente mais altas de suicídio ou de tentativa de suicídio entre os membros da população LGBTQI+ ilustram esse fenômeno: dificilmente alguém seria levado a dar cabo da própria vida por ter sido chamado de “bichinha” ou “sapatão” uma única vez. Não são as atitudes esporádicas que podem produzir esse resultado, mas a regularidade do comportamento agressivo de uma coletividade, que, sob diversas formas e com a participação de diversos sujeitos, se estende pelo tempo. Não há como individualizar a responsabilidade pelas ações que vêm levando membros da comunidade LGBTQI+ ao suicídio, pois não há um único sujeito individual responsável, mas vários, que, em conjunto, por ação ou omissão, formam um sujeito coletivo, esse, sim, o principal suspeito.

Semelhante perspectiva, com o sujeito coletivo em primeiro plano, revela que, no plano jurídico, a criminalização da homofobia é resposta limitada para o problema, pois atinge somente o sujeito individual que praticou o fato típico, não alcançando o sujeito coletivo, que permanece intocado e invisível.

Como também intocado e invisível permanece o sujeito homofóbico. Se, de um lado, abundam informações sobre as vítimas da homofobia, de outro, ninguém parece preocupar-se em entender o que leva alguém a assumir atitudes hostis em relação à população que não segue o padrão heteronormativo. Esse tipo de questionamento, porém, implica, além do enfoque sociológico, uma abordagem psicológica que coloque em primeiro plano o sujeito individual, porém, ao contrário do sujeito individual focalizado pela abordagem sociológica, que faz parte e interage com um determinado sujeito coletivo, o sujeito individual dessa abordagem psicológica é dotado de sentimentos, alguém com raiva, inveja, medo, indignação.

A abordagem psicológica permite humanizar o homofóbico, sem que isso implique exonerá-lo de sua responsabilidade. Humanizar o homofóbico significa não submeter seus sentimentos a juízos de valor, pois não há sentimentos certos ou errados, nem sentimentos legais ou ilegais. Sentimentos não são criminalizados. A homofobia pode ser crime, mas o sentimento homofóbico não é. Cabe entendê-lo. É um passo necessário na luta contra o preconceito de modo geral, uma luta que, para ser efetiva e gerar frutos, deverá não somente buscar o diálogo com os preconceituosos, como também compreendê-los, a eles e suas razões. Não se espera um diálogo com lideranças religiosas que explorem a homofobia em sua ação política, mas talvez seja possível vislumbrar uma aproximação com os explorados pelo discurso de ódio e entender como funciona o seu preconceito.

Ter empatia com o perpetrador, repita-se, não significa perdoar seus atos, nem minimizar os danos que causou, mas procurar compreender por que alguém age e pensa de forma tão bestial. Se, nesse esforço de compreensão, recorrermos à psicanálise, passaremos pela hipótese do inconsciente e, portanto, pelo desafio da própria noção de autonomia do sujeito, que já não será mais visto como alguém puramente determinado pela razão. Que configuração psíquica terá um homofóbico visto sob essa perspectiva? O que ele sente, o que o faz sentir-se assim, eis o que também deve ser investigado, no contexto da luta contra a homofobia e a favor da tolerância.

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