A religião e os zumbis existenciais

Geraldo Miniuci

15 de setembro de 2020 | 10h03

Recentemente, afirmou o ministro da educação que, sem fé, jovens brasileiros tornam-se “zumbis existenciais”.

Não se sabe bem ao certo o que significa esse termo. Em geral, no credo popular, zumbi designa os mortos-vivos, cujos corpos se decompõem, como se decompõem os cadáveres, mas cuja alma permanece animada e condenada ao eterno sofrimento. São seres que vagueiam à noite, espalhando medo. Nesse sentido, então, salvo melhor juízo, um sujeito sem fé estaria fadado a caminhar pela vida como um morto-vivo, sem perspectiva, e que somente a crença religiosa seria capaz de salvá-lo da perpétua danação. Zumbis existenciais, portanto, são jovens que não acreditam em mais nada, nem em Deus, nem na política, nem na família, enfim, em nenhum dos valores que o senhor ministro da educação reputa fundamentais.

Além de fazerem-nos acreditar em zumbis, terão as religiões esse poder de conduzir os fiéis a alguma coisa de positivo, no curso de suas vidas pessoais e sociais?

Entendida como um sistema de crenças, fundado em dogmas, a religião permite dois tipos de discursos: de um lado, há narrativas místicas, em que se fazem referências a reinos divinos, à aliança entre Deus e suas criaturas, a virgens que dão à luz, a mortos que ressuscitam, a donzelas puras à espera dos homens justos, numa vida para além da morte, ou a zumbis. De outro lado, porém, além das descrições de reinos ou de feitos mágicos, como mares que se abrem ao comando de um homem ou pães que se multiplicam por determinação da mesma pessoa que também tem o poder de transformar água em vinho, além de narrativas desse quilate, em que mortos em decomposição andam pelas ruas, os sistemas de crenças lançam igualmente desafios aos seus fieis, desafios que talvez poucos consigam vencer.

Religiões propõem, cada uma a seu modo, que seus fiéis tenham atitudes virtuosas. O comportamento virtuoso compreende o uso da razão, a realização da justiça, a firmeza nas dificuldades e o autocontrole. Noutras palavras, ter conhecimento e sabedoria para que possa discernir o certo do errado, ter firmeza para dar a cada um o que é seu, vencer tentações, libertar-se da raiva, oferecer a outra face, quando se leva um tapa, ou simplesmente perdoar, não o perdão hipócrita, de quem apenas deixa de dar vazão a um sincero desejo de vingança ainda vivo, mas o perdão sincero, que conforta a alma da pessoa ofendida, eis, em suma, o que se exige de um fiel.

Nada mais difícil. Qual ser humano será capaz de reunir em si mesmo todas essas virtudes? Se o autocontrole, que nos liberta de nossos instintos, for pré-condição para a liberdade, quem terá alcançado este estágio na evolução humana, o de pessoa livre? Se a resistência pacífica for mais eficiente do que a resistência armada, se oferecer a outra face for mais impactante para o agressor do que o revide, se essas e outras ações virtuosas forem, de longe, mais eficientes para desarmar moralmente o adversário, quem terá firmeza para sofrer os ataques sem revidá-los?

Esses desafios exigem coragem, disposição de encarar-se a si mesmo como criatura falível, sem certeza sobre as próprias certezas, porém sujeita a paixões e a atitudes que a afastam do caminho da virtude. Ora, mas, se as religiões fossem constituídas apenas por mandamentos que exigem ações virtuosas, elas não teriam tantos adeptos, nem teriam o peso político de que desfrutam, tanto no plano nacional, como no internacional. Ao contrário, talvez não passassem de grupos de filosofia ou de sociedade de filósofos, e existiriam, portanto, em número reduzido. Não. Para que isso não aconteça, além de uma via repleta de desafios e provações, as religiões oferecem um outro caminho mais fácil, construído na via do misticismo, em que Deus, ao permitir milagres e mágicas, permite que se revoguem suas próprias leis e, com isso, que se revogue toda a racionalidade necessária para a ação virtuosa.

Por esse caminho, em vez de ações virtuosas, teremos liturgias e rituais repetitivos, que lembram certas compulsões; em vez de sinceras dúvidas acerca do agir virtuoso, deparamo-nos com autoflagelação, porque, aparentemente, deve ser mais fácil bater no próprio corpo do que se encarar como pessoa carregada de preconceitos, de intolerância, de ódio, disposta a julgar e condenar aqueles que a ofenderam, mas que pede perdão a quem por ela foi ofendido. Em suma, em vez da emancipação, mediante a ação virtuosa, colocamo-nos às voltas com narrativas de gosto infantil, em que cristãos fazem, com inusitada frequência, referências a manifestações demoníacas, quando não a zumbis e a outras criaturas que simbolizam o mal, dando, com isso, um passo decisivo rumo à própria infantilização.

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