A “virtù” e a “fortuna” de Joaquim Barbosa (comentários sobre uma entrevista)

A “virtù” e a “fortuna” de Joaquim Barbosa (comentários sobre uma entrevista)

Frederico de Almeida

24 de março de 2014 | 17h05

Créditos: Dida Sampaio/Estadão

Na noite de sábado para domingo último o jornalista Roberto D’Ávila voltou à TV brasileira com a estreia de seu novo programa de entrevistas no canal Globo News. O primeiro entrevistado do programa foi o Ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF. A entrevista pode ser assistida no site da Globo News.

Reconhecido entrevistador, D’Ávila logo alertou seu entrevistado de que, contrariando sua metodologia usual, não começaria a entrevista fazendo perguntas sobre a infância e a vida de Barbosa. E logo disparou a pergunta de que todos parecem querer saber a resposta (e que certamente justifica o fato de Barbosa ser o escolhido para a estreia do programa de D’Ávila): Barbosa “irá para os braços do povo”, ou seja, será candidato nas eleições?

Seguiram-se algumas perguntas e respostas sobre política. Barbosa afirmou ser avesso à política, e que, como líder do Judiciário, busca manter-se alheio à política que acontece nos prédios vizinhos da Praça dos Três Poderes. Com isso, Barbosa parece reproduzir uma concepção bastante comum no mundo do Direito, que é a de distanciamento do Direito e dos juristas (dos juízes, especialmente) em relação à política. Em outro momento da entrevista, porém, questionado sobre sua formação acadêmica na França Barbosa disse ser importante para o jurista conhecer as Ciências Sociais, em especial a Ciência Política (especialmente para os juristas dedicados ao Direito Público). Ora, deve se conhecer a Ciência Política, mas não a política real, praticada nos palácios do poder?

Não parece ser esse o caso. Ainda no início da entrevista, justificando seu desinteresse (momentâneo) pela política, Barbosa reclamou do “apedrejamento” público das autoridades, praticado por aqueles que desconhecem o funcionamento do Estado, e que estaria na base do que ele chamou de “esgarçamento” das instituições. Esse apedrejamento parece ser injusto quando afeta homens e mulheres que cumprem sua função pública corretamente – e não há dúvida de que Barbosa se inclui nesse grupo, como demonstram outros trechos da entrevista nos quais ele justifica seu comportamento irascível em defesa do que acredita ser o certo. Mas esse apedrejamento seria justo, quando voltado contra os “conchavos”, “tapinhas nas costas” e outras práticas políticas que Barbosa condenou com veemência na entrevista?

Conhecedor das teorias (como intelectual erudito) e da prática legal e burocrática do Estado (como dedicado servidor público), mas avesso a certas práticas políticas associadas ao conchavo e à conciliação, e ainda com um ímpeto declarado de combate intransigente a estas práticas: essa parece ser a “virtù” alegada de Joaquim Barbosa (para usarmos a expressão de Maquiavel que designa os atributos pessoais, as habilidades da liderança política, do “príncipe” no uso de seu poder). “Virtù” esta que se reforça, diga-se de passagem, pela sua aderência a um senso comum bastante espraiado sobre a política, que reclama dos conchavos e negociatas, e não raro demanda intervenções voluntariosas e salvacionistas. Sobre a fortuna (a outra dimensão da teoria de Maquiavel sobre a liderança política, aquilo que é alheio ao príncipe, a força das circunstâncias) também falou Barbosa já no final da entrevista: classificando como “bobagens” os discursos sobre sua vida que falam em superação de um menino pobre do interior, ele disse que apenas aproveitou bem as oportunidades que teve – as quais, reconhece, não estão disponíveis a todos, muito menos aos negros brasileiros.

É na combinação da “virtù” e da “fortuna” que surgem os grandes príncipes, diria Maquiavel. Mais do que isso, é no enfrentamento virtuoso da “fortuna” (que ora vem como sorte, ora como azar), que se constrói a liderança política. Liderança tanto mais necessária, ainda segundo Maquiavel, quando as instituições estão em crise e o Estado precisa ser “refundado” – e este parece ser, em parte, o diagnóstico de Barbosa sobre a política atual.

A alegada timidez de Barbosa na entrevista pode tanto esconder deliberadamente uma consciência arguta de suas próprias capacidades e do momento político, quanto pode simplesmente significar a supervalorização de uma coisa e a má avaliação da outra. Se a passagem de Barbosa da condição de magistrado para príncipe será realmente postergada, resta saber as condições em que – ou sob que “fortuna” – isso se dará. E resta saber também se, para além do forte apelo popular de suas considerações sobre a política, essa sua “virtù” é suficiente para enfrentar um jogo político que, para o bem ou o para o mal – ou melhor: para além de qualquer juízo sobre bem e mal, pois é essa uma importante lição de Maquiavel para o realismo na política – não é só conflito, mas também conciliação.

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