Deus, Nação e o Indivíduo: três sujeitos em conflito

Geraldo Miniuci

12 de agosto de 2019 | 07h46

Deus, Nação e Indivíduo são conceitos que hoje despontam com frequência no discurso político, sobretudo dos partidos de extrema-direita. Por meio deles, instituições religiosas, o Estado e os sujeitos individuais justificam suas pretensões na esfera pública e no exercício do poder do qual forem titular.

Cada uma dessas justificativas se ampara numa ordem normativa distinta: a religiosa, a nacional e a liberal. Assim, enquanto Deus designa o criador do universo, um sujeito atemporal, Nação nomeia uma comunidade humana, um sujeito coletivo historicamente determinado; enquanto a ideia de Deus pode remeter ao universalismo e à humildade, a de Nação, ao contrário, necessariamente confina o individuo no provincianismo e no orgulho próprio, no narcisismo de quem acha feio o que não for nacional; enquanto, enfim, perante Deus todos são iguais, perante a Nação, somente os nacionais gozarão de todas as prerrogativas e privilégios previstos no ordenamento do país.

Em comum entre esses dois sujeitos, o atemporal e o provinciano, está o fato de que, em nome de ambos, se exigem do indivíduo lealdade e sacrifício. Até o surgimento do fenômeno nacional, os sujeitos individuais extraiam da religião sua identidade, eram fiéis e matavam e morriam em nome de Deus. Com o apogeu da Nação, o indivíduo foi instado a ser leal a um outro sujeito, em nome do qual passou a matar e a morrer, e no lugar do mártir religioso, entrou o herói nacional.

Já numa ordem liberal, espera-se lealdade ao ser humano e à sua força criadora e empreendedora. Nessa ordem, inexistem totalidades como Deus ou sujeitos coletivos como a Nação, mas apenas sujeitos individuais, cuja religião ou nacionalidade são apenas algumas características, dentre outras, dessas pessoas. Nela, será possível ao indivíduo não somente possuir bens e acumular riqueza, como também acreditar num deus, adorar o próprio país ou simplesmente renegar a tudo, sem que nada lhe possa ser imposto, porque todas as pessoas são livres para conduzir suas vidas conforme suas próprias preferências, acreditando naquilo que lhes mais convença.

Na prática, há sujeitos individuais que se revelam devotos tanto de Deus como da Nação. Quando colocam a Nação acima de tudo, abaixo somente de Deus, assumem que ela se encontra, de um lado, acima dos indivíduos que a compõem e deles pode exigir, quando necessário, uma cota de sacrifício, como, por exemplo, recrutamento militar e envio de nacionais para a frente de batalha. De outro lado, assumem também que a Nação se encontra acima das demais nações, em postura insustentável, desprovida de legitimidade: afinal, se fosse legítimo que uma nação se colocasse acima das demais, a todas as outras deveria ser igualmente reconhecido esse direito, pois nada há que justifique tratamento diferenciado a quem quer que seja. Mas se a todas as nações fosse dado colocar-se acima de tudo e das demais, ninguém ficaria acima de nada, e passaria a existência lutando por um primeiro lugar que nunca terá, preferindo competir do que cooperar.

Em resumo, as ações feitas em nome da Nação se desdobram em dois planos: no interno, em que sua marca é o totalitarismo de um coletivo que exige fidelidade de seus membros, em troca de direitos de cidadania, e no externo, em que esse coletivo pode colocar-se acima de tudo quando compete com outras nações ou no mesmo nível em que estão, quando com elas coopera.

O discurso político da extrema-direita parecerá incoerente e mesmo irracional, se aceitarmos que o poder divino (ou o poder das instituições religiosas), o poder da Nação (Estado e sociedade) e os direitos de uma ordem liberal não devam sofrer restrições. Se, contudo, forem admitidos limites, caberá então perguntar: como conciliar ideias tão antagônicas? Como conciliar o perdão, a tolerância e o acolhimento determinados pelas sagradas escrituras com a arrogância do orgulho nacional, a intolerância que dele decorre e as fronteiras que, inerentes à Nação, separam a humanidade? Como conciliar o universalismo divino, o provincianismo da Nação e os valores liberais apregoados pela direita do espectro político?

A conciliação possível, pode-se supor, resultará da predominância de uma destas três ordens normativas: a religiosa, a nacional ou a ordem liberal. Uma conciliação regida por princípios liberais, por exemplo, confinaria a religião à esfera privada e tornaria o nacionalismo relíquia do passado, ao lado da monarquia. Já uma conciliação de extração nacionalista colocaria a Nação acima de tudo, aceitaria o liberalismo econômico, mas não deixaria de implantar medidas protecionistas, se a concorrência estrangeira fosse pesada. E uma conciliação conduzida por instituições religiosas teria o potencial de, associada ao poder do Estado, invadir a esfera privada, em todos os níveis, no individual, no familiar e no social,

Na prática, vê-se que, no discurso da extrema-direita, a conciliação entre os valores religiosos, nacionais e liberais faz-se em detrimento sobretudo dos valores liberais, que ficam reduzidos a um mero catálogo de direitos de propriedade. Não se protege o indivíduo pelo que tem em si, mas por sua condição de proprietário ou de agente econômico. Qualquer outra característica individual poderá ser sufocada em nome de Deus ou da Nação.

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