Do ódio social ao ódio político

Frederico de Almeida

24 Setembro 2015 | 15h31

Jovens negros e pobres sendo caçados em ônibus por milícias de jovens brancos de classe média no Rio de Janeiro. Ciclitas sendo chamados de comunistas por motoristas de carros por usarem a ciclovia na cidade de São Paulo. Praticantes e terreiros de candomblé sendo atacados supostamente por fiéis de seitas evangélicas. Estudantes de medicina fazendo piadas, sem qualquer pudor, com a pele e os cabelos de colegas universitários cotistas. Jovens pobres expulsos de shoppings e sua música, o funk, perseguida nas periferias. Sugestões de exclusão do direito de voto de beneficiários de programas sociais do governo. Imigrantes das piores tragédias do mundo contemporâneo sendo hostilizados em seus precários empregos e espaços de acolhida.

Ministros de governos petistas sendo expulsos de restaurantes. Militantes sendo agredidos por usarem camisetas vermelhas. Qualquer opinião à esquerda, mesmo que contra o atual governo federal, sendo raivosamente taxada de “petralha”, “bandida”. Páginas em redes sociais defendendo a morte de Dilma e Lula. Uma professora da Unicamp, pesquisadora do Bolsa Família, sendo continuamente agredida verbalmente por seu vizinho, que finalmente decide jogar seu carro contra a filha da vizinha, sob a acusação de “petismo”. O presidente da CUT falando em pegar em armas para defender o governo e uma militante petista furando um boneco inflável em plena manifestação contra o governo só ajudam a colocar lenha na fogueira.

Não me parece coincidência que as manifestações de intolerância que listei no primeiro parágrafo – um ódio social, chamemos assim – tenham despontado com mais intensidade juntamente com a exarcebação de certa oposição aos governos do PT, desde um pouco antes das eleições de 2014, e cujas manifestações de ódio político listei no segundo parágrafo. Não raro, os alvos das manifestações de ódio social são beneficiários de políticas de governos petistas (cotistas, beneficiários do Bolsa Família, ciclistas); além disso, não falta quem expressamente associe os alvos de seu ódio social a projetos políticos, ainda que ocultos, do PT (como o “ativista” Daniel Barbosa que hostilizou um haitiano na cidade de Canoas, ou o deputado Bolsonaro, que chamou os imigrantes atuais de “escória do mundo”, ambos insinuando que a chegada dessas pessoas está de alguma forma relacionada com planos secretos do PT e do Foro de São Paulo). E não acho exagero incluir aí manifestações menos explosivas e mais sutis dessas intolerâncias combinadas, como os manifestantes pro-impeachment que, em um de seus atos contra o governo, saudavam uma Polícia Militar suspeita de envolvimento em uma violenta chacina ocorrida menos de três dias antes.

Seria exagero dizer, porém, que o ódio social surgiu agora, juntamente ou por causa do ódio político aos governos do PT. Afinal, sabemos que o Brasil nunca foi um paraíso de paz social e tolerância, livre de preconceitos e discriminações. Acho possível, apesar disso, utilizar um bordão dos antipetistas para dizer que, sim, é culpa do PT – mas não no sentido ou pelas razões pelas quais antipetistas o afirmam.

Com todos os seus defeitos, os governos do PT no plano federal promoveram políticas de inclusão significativas, cujos efeitos foram visíveis em prazo curto. A redução da pobreza, a incorporação de novos contingentes sociais no mercado de consumo, a ampliação do acesso ao ensino superior, a expansão do emprego formal a ocupações antes precarizadas (como a construção civil e o trabalho doméstico) tornaram visíveis pessoas historicamente subalternizadas, muitas vezes sob a cínica máscara da democracia racial ou da cordialidade do brasileiro. Não demorou para que as classes privilegiadas passassem a expressar, de maneiras mais ou menos sutis, o seu desconforto por terem que conviver com aqueles subalternos nos mesmos espaços (aeroportos, shoppings, universidades). De certa forma, isso é culpa do PT, e o partido merece os parabéns por isso.

Por outro lado, tendo a oportunidade histórica de avançar no enfrentamento de outras desigualdades que não se fundam primariamente na desigualdade de renda, o PT foi tímido. Apesar de algumas medidas pontuais, não enfrentou adequadamente o problema da violência policial, de gênero e de orientação sexual, dos homicídios de jovens negros e pobres, do sistema penitenciário e do extermínio de populações indígenas. Em muitos casos, não só por timidez, mas por recuos estratégicos decorrentes de compromissos políticos imediatos. Para atender à bancada evangélica, abortou políticas de educação para a diversidade sexual. Para atender à bancada ruralista, retardou demarcações de terras indígenas. Para atender a moralistas em geral, recuou em mudanças de políticas sobre drogas e aborto. Para atender a uma população com justificado medo da violência, replicou o velho discurso punitivista da direita política. Quando jovens foram às ruas por mais direitos e políticas públicas, o governo federal aplaudiu a bárbara repressão das polícias paulista e carioca, tidas entre as mais violentas do país, e ainda prometeu ajuda aos governos estaduais.

Sem sequer propor uma reforma política que tornasse mais estáveis e representativos os arranjos partidários e parlamentares e rompesse com a influência do poder econômico na política, o PT se viu enredado em escândalos de corrupção que corroeram sua credibilidade. Sem enfrentar a questão da concentração de renda e da propriedade, dos juros da dívida e do desenvolvimento industrial, transformou a mobilidade social baseada em consumo, emprego formal e transferência de recursos em uma frágil construção política e social, incapaz de resistir a tempos de recessão e ajuste fiscal. Hoje, aqueles que o PT cortejava com seus recuos e sua timidez estão na linha de frente dos que o atacam. De outra maneira, isso também é culpa do PT.

Mas não somente do PT. A oposição partidária, PSDB à frente, alimentou os ódios sociais e políticos até o limite da irresponsabilidade, buscando ganhar no grito e nas ruas uma batalha que perdeu nas urnas. Deslocado ainda mais à direita pela própria guinada ao centro do PT, o PSDB se viu obrigado a abandonar compromissos históricos que teve com a democracia e os direitos humanos, para encampar despudoradamente bandeiras dos nossos velhos ódios sociais: o elogio à violência das polícias, defesa de políticas criminais repressivas e redução da maioridade penal, oposição a políticas sociais inclusivas, flerte com soluções extra-institucionais para resolver uma crise política que eles ajudaram a criar e a crescer. Parece-me que as antigas bandeiras e os compromissos democráticos do PSDB foram importantes para conter as falanges mais agressivas de nossa direita, moderando o conflito político nos embates contra o PT desde a redemocratização. Isso, porém, é passado.

Se o governo Dilma tiver seu fim antecipado, é provável que os propagadores do ódio ao PT tenham seus ânimos sossegados, satisfeitos com a falsa convicção de que foram os principais responsáveis pelo resultado de um jogo do qual são, na verdade, apenas os animadores de torcida (digo isso sem diminuir a importância de uma torcida animada para o resultado do jogo). Como parte do ódio social lhe vinha a reboque, pode ser que as manifestações de violência e intolerância difusa contra negros, pobres, LGBTT, imigrantes, ativistas, subalternos em geral se reduza. Mas como esse ódio social tem raízes históricas mais profundas, e aflorou justamente pelo aguçamento do conflito social (do qual o conflito político é apenas a superfície), pode ser que ele permaneça e até se propague, embalado pela vitória do ódio político. Se isso acontecer, a instabilidade econômica e política da crise do governo Dilma é apenas o mais imediato de nossos problemas; com um PT fragilizado e um PSDB cada vez mais à direita, a questão é saber quem vai colocar de volta a tampa no caldeirão fervente de bílis.

(Artigo originalmente publicado no site Justificando.com em 23 de setembro de 2015).