Economia e identidade nacional

Geraldo Miniuci

01 de agosto de 2019 | 10h49

Em artigo publicado no Financial Times, de 7 de março deste ano, (For Leavers, it is not about the economy), Simon Kuper discorre sobre as razões que levaram 51,9% do eleitorado britânico a apoiar o Brexit, e 48,1% a votar pela permanência do Reino Unido na União Europeia (UE). Esses números mostram um país dividido, e o autor observa que, entre as duas partes, há um diálogo de surdos: de um lado, os que votaram pela saída alegaram tê-lo feito motivados por duas ordens de preocupação: a soberania nacional e a imigração; de outro, os que votaram pela permanência fizeram-no por razões econômicas, temendo sobretudo o prejuízo que o Reino Unido sofrerá saindo da UE.

It is not the economy, stupid! Assim bradaria a parte do eleitorado britânico que optou pelo Brexit, em atitude que parece refletir uma tendência nos dias de hoje: segundo pesquisa feita em 31 países europeus, citada por Kuper, a ascensão de líderes populistas (e do nacionalismo) deve-se menos à insegurança econômica do que a uma reação cultural. No caso do Reino Unido, de acordo com outra pesquisa igualmente citada pelo autor, a opção pelo Brexit foi sobretudo em reação aos imigrantes, ao adensamento burocrático da UE e à perda de soberania para Bruxelas. Apenas um número substancialmente menor alegou motivações econômicas para justificar a opção pela saída.

Se a I Guerra Mundial (1914-1918) e a crise econômica nos anos 1920 serviram de estímulo para o nacionalismo e a ascensão de líderes do quilate de Hitler, nos dias de hoje esse tipo de liderança parece aproveitar-se tanto de uma insatisfação generalizada, na sociedade, causada pela presença do estrangeiro, como de um sentimento nacionalista sempre existente, mas durante muito tempo oculto, e que agora volta às bocas. O Reino Unido, aqui referido, é apenas um exemplo nessa tendência.

Se não é a economia o principal motivo daqueles que escolheram o Brexit, de nada adianta, com efeito, ao debater com esses eleitores, apresentar-lhes razões de natureza econômica. A economia não está no seu horizonte de preocupações. Ainda que um ou outro possa acusar os imigrantes de tomar dos cidadãos locais seus postos de trabalho, a principal preocupação não está nessa perda, mas numa outra: na perda da identidade nacional, da própria cultura.

Em países receptores de imigrantes, o modo de vida, as crenças e os costumes dos estrangeiros que surgem na sociedade lançam um desafio para a população local, que terá perante o fenômeno da imigração, pelo menos, duas atitudes possíveis: de um lado, exigir que a integração do imigrante, se for necessária e inevitável, caminhe no sentido da assimilação dos valores e costumes da maioria. Implícito nessa ideia está o pressuposto de que uma sociedade pode fossilizar-se, congelando-se num determinado momento histórico, a partir do qual nada mais de novo haverá. Quem quiser dela fazer parte deverá a ela adaptar-se.

Outra atitude possível, embora, nos dias de hoje, menos provável, será admitir que sociedades são organismos vivos, suscetíveis a influências externas e, portanto, mutáveis. Em vez de pretender conservá-las, embarcando num projeto fracassado desde a origem, melhor será admitir que a integração não somente é inevitável, como se trata de uma via de mão dupla: tanto o imigrante deve adaptar-se ao entorno, como o entorno deve também adaptar-se ao imigrante, acolhendo suas diferenças. Sob essa perspectiva, uma sociedade é um conjunto formado por partes que se relacionam entre si e, ao fazerem-no, alteram-se mutuamente.

O nacionalismo, no entanto, sendo uma ideologia que coloca a Nação acima de tudo (ou em primeiro lugar), revela-se incompatível com uma concepção de mundo que, valorizando o indivíduo e suas diferenças, admite uma sociedade aberta a influências externas e em constante processo de mutação. Sob a perspectiva nacionalista e estatocêntrica, o imigrante, sobretudo os refugiados, são colocados numa situação sui generis: têm o direito inalienável de emigrar, deixando seu país de origem, mas não têm o direito de imigrar. Quando imigram, não são cidadãos em pleno gozo dos seus direitos de cidadania, como, por exemplo, votar e ser votado, pois esses direitos se fundam na constituição do Estado nacional e são extensivos apenas aos nacionais. Aos imigrantes que pretendam ascender à condição de cidadãos, cabe-lhes, quando isso for legalmente possível, naturalizar-se e jurar fidelidade ao novo Estado.

As plataformas nacionalistas, percebe-se, partem de pressupostos equivocados e terminam por gerar uma situação de abandono e injustiça, pois, de um lado, eis o equívoco, ao demandarem a preservação de determinada situação, pretendem algo irrealizável, a conservação de uma sociedade que seguirá como organismo vivo e mutante. De outro, eis o abandono e a injustiça, nessa situação que pretendem preservar, perpetua-se uma concepção de cidadania que, vinculada à nacionalidade, exclui os imigrantes da condição de cidadãos, privando-os de exercer seus direitos políticos, ainda que previstos em tratados multilaterais e regionais de direitos humanos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.