Era injusta a tarifa ontem à tarde? Pois continua injusta hoje de manhã

Era injusta a tarifa ontem à tarde? Pois continua injusta hoje de manhã

Rafael Mafei Rabelo Queiroz

19 de junho de 2013 | 10h33

Meu local de trabalho, uma pequena sala de estudos onde guardo livros e pilhas de provas para corrigir, fica a poucos metros da Prefeitura de São Paulo. Fui agora conferir os resquícios da manifestação de ontem, no próprio prédio da Prefeitura, na Praça do Patriarca e na Rua Direita. Basicamente, há pichações variadas na Prefeitura e na cobertura das escadarias da Praça do Patriarca. Além dos vidros quebrados da Prefeitura, destruição, mesmo, vi em poucos estabelecimentos: uma ótica, uma loja de roupas, e principalmente em duas agências bancárias do Itaú. A loja Marisa estava um pouco bagunçada, mas me pareceu intacta (vitrines e manequins no lugar). A agência do Banco do Brasil, na mesma Praça do Patriarca, está inteira, assim como a quase totalidade do comércio do local.

Vendo este cenário de cacos, ferros e muitas pichações, ao qual ninguém fica indiferente, temo que agora comecem a se relativizar as coisas pela junção de assuntos que, em si, são independentes, embora às vezes, como nos protestos de ontem, aconteçam misturados: o mérito do pleito, justo, sobre o custeio do transporte público; e a condenação, óbvia, da violência desnecessária – que, frise-se bem, ora parte dos manifestantes, ora de policiais, ora de terceiros que, com agenda própria, comparecem para causar tumulto e acabam desmerecendo o protesto.

Quem mistura as coisas – “até apoiava os protestos, mas agora os vândalos perderam a razão…” – produz a versão política do argumento de Super Trunfo que empregamos em brigas de casais: “quem se descontrola perde a razão”. Este argumento pretende, por sua simples invocação, suprimir a verificação da plausibilidade de qualquer demanda pelo fato de ela ter sido externada de maneira inapropriada. Em outras palavras: não importa quanta razão você tenha no mérito de sua reclamação, você a perderá se ela não for veiculada de maneira própria.

Partindo do truísmo de que a violência, a qualquer pretexto, é um mal que deve ser evitado e sempre preterido em favor de alternativas pacíficas, essa posição, levada ao extremo, quer condicionar qualquer reivindicação coletiva a assumir a forma de uma reunião de condomínio, ou uma romaria a Aparecida do Norte, ou uma caminhada contra o câncer.

Mas protestos nem sempre são assim, nem aqui, nem em outro lugar qualquer do mundo. Às vezes, juntam pessoas com ideias distintas, discordância de métodos e pautas heterogêneas, o que parece estar acontecendo no caso de São Paulo. Nesse cenário, sequer é possível saber o significado dos atos de violência cometidos, ou relacioná-los ao pleito relativo aos transportes. Notem bem, em uma das fotos que posto abaixo do texto, que na parede da Prefeitura há um “não à PEC 37”. Quem quer ser incondicionalmente contra qualquer reivindicação feita em um espaço onde alguém, por qualquer motivo, quebre alguma coisa, já pode agora empunhar a bandeira da restrição à investigação pelo Ministério Público… Ou será que não é bem assim?

É claro que devemos condenar excessos. Reconhecendo, ao mesmo tempo, que vieram de poucos – se os cinquenta mil da Sé tivessem partido para um quebra-quebra sem limites, eu não estaria, neste momento, poucas horas após a manifestação, tomando café em uma padaria em perfeito estado de conservação a cinquenta metros da Prefeitura e ao lado de uma agência destruída do Itaú. Busquemos as responsabilidades, claro, como também dos responsáveis pela violência policial que reprimiu os protestos anteriores.

Mas lembremos, e isso é muito importante, que o mérito substantivo dos pleitos que originaram os protestos permanece rigorosamente idêntico, intacto e forte: o transporte público de São Paulo, sustentado predominantemente por tarifas pagas pelos usuários, é custeado de forma injusta, porque não orientado ao bem comum que deveria favorecer (condições ótimas de mobilidade para todos). E isso faz com que os custos de locomoção sejam excessivos para todos: além de tarifas caríssimas de ônibus e metrô, gastamos muito tempo em ruas entupidas por transporte privado e individual; pagamos, pelo recurso excessivo ao transporte individual, preços extorsivos a estacionamentos e serviços de “valet” que fazem filas duplas e estacionam nossos carros em vias públicas, muitas vezes ilegalmente; matamos e ferimos ciclistas, pedestres e motociclistas disputando palmos de chão no trânsito.

Se há quem ganhe com isso, não sou eu e, provavelmente, nem você que está lendo este texto. A reprovação à violência não pode ser converter em aceitação desse quadro. Se ontem essa distribuição era injusta, porquê os ônus são de muitos e os bônus, de pouquíssimos, e hoje, ao amanhecer, ela continua igual, então ela continua sendo injusta, ainda que haja cacos de vidro estalando sob nossos passos.

Abaixo, algumas fotos do entorno da Prefeitura agora pela manhã.

Prefeitura, pichada com todo tipo de pleito.

Cobertura das escadarias da Praça do Patriarca.

Livraria Martins Fontes na Praça do Patriarca, que ontem ficou tomada pelos manifestantes: tudo em ordem. Ao lado, à esquerda da foto, agência intacta do Banco do Brasil.

Vai um terno do Fábio Júnior? Tudo bem com a Colombo ao ladro da Praça do Patriarca, assim como com a enorme maioria do comércio das redondezas.

A agência do Itaú da Praça do Patriarca se deu muito mal: quebrada, invadida, revirada.

Atualização do post (14h00): fui, de propósito, almoçar nas redondezas da Prefeitura, deste lado de cá (Praça da Sé) do Vale do Anhangabaú, para dar uma segunda olhada no entorno. A loja Marisa está fechada, de forma que deve ter havido algo mais sério lá dentro. Um leitor do blog informa também que houve duas lojas de celular invadidas. Vi algumas pessoas desamassando portas de metal, provavelmente porque foram chutadas. Mas a maioria do comércio parece estar funcionando normalmente, ao menos nesta banda do Centro (não atravessei o Anhangabaú para ir para os lados do Teatro Municipal). Feitos esses registros, minha impressão geral segue a mesma da manhã, expressa no texto acima.

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