Feminismo e o “não me encoxa que eu te furo”

Tathiane Piscitelli

22 de abril de 2014 | 09h03

Compartilho aqui o ótimo artigo de Ingrid Cyfer, professora de Teoria Política da Unifesp, sobre a campanha “não me encoxa que eu te furo”, noticiada há alguns dias. O artigo foi publicado na semana passada no Estadão Noite, e vale ser lido.

 

Uma Alfinetada na Campanha “Não me encoxa que eu te furo”

por Ingrid Cyfer*

Há alguns dias, integrantes do “Movimento Mulheres em Luta” distribuíram alfinetes a passageiras do metrô promovendo a campanha: “não me encoxa que eu te furo”. O objetivo foi, evidentemente, dar visibilidade ao problema dos abusos sexuais nos transportes públicos e gerar mobilização. No entanto, transformar a “alfinetada” em slogan feminista é uma estratégia completamente equivocada, uma vez que reitera o senso comum de que a mulher é responsável por prevenir e se defender da violência. É claro que qualquer pessoa tem o direito de reagir a uma agressão sempre que quiser ou puder. Isso se chama legítima defesa. Mas situar o discurso contra a violência na esfera de atuação individual é uma armadilha perigosa. Especialmente no caso da violência de gênero, historicamente interpretada como um problema privado.
O movimento feminista brasileiro tem acumulado muitas conquistas importantes na politização da desigualdade de gênero. A Lei Maria da Penha e as cotas para mulheres em partidos políticos são dois casos notórios. Foram vitórias porque comprometeram o Estado com o dever de responder a injustiças nas quais evitava “meter a colher”. Os assédios e abusos sexuais contra a mulher nos transportes públicos exprimem o mesmo padrão discriminatório que a expõe à violência doméstica e limita seu acesso à esfera pública e, portanto, também exigem reivindicações por outras boas colheradas do poder público.
Não há uma bala de prata contra o sexismo. É preciso combinar uma série de estratégias e reivindicar políticas de curto, médio e longo alcance. Os abusos sexuais nos metrôs exigem, sem dúvida, respostas urgentes. A mulher que embarcará no próximo trem lotado não pode esperar por um mundo melhor para ter sua integridade física e moral asseguradas. Mas nenhuma urgência justifica tiros a esmo.
A campanha “não me encoxa que eu te furo” errou o alvo. Não ajuda em nada, e até atrapalha. As alfinetadas não fazem nem cócegas no problema e ainda tem o efeito colateral de corroborar, inadvertidamente, o discurso autoritário da justiça com as próprias mãos. Embora seja obviamente motivada pelas melhores intenções, ela apenas reproduz a cultura do medo de uma sociedade politicamente desmantelada, que confia nas reações individuais para enfrentar a omissão e a ineficiência do poder público.
A construção da igualdade de gênero requer muito mais do que boas intenções. Exige um discurso responsável e comprometido com valores democráticos; afinal, é justamente quando esses valores vacilam que grupos discriminados, inclusive as mulheres, tornam-se ainda mais vulneráveis à violência.

* Ingrid Cyfer, professora de ciência política na Universidade Federal de São Paulo, pesquisa teoria política feminista.

 

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