Hiroshima, mon amour

Geraldo Miniuci

06 Agosto 2018 | 06h14

Foi num dia como hoje, há 73 anos, em 6 de agosto de 1945, igualmente uma segunda-feira, às 8h15m, que a humanidade conheceu o poder de destruição da primeira bomba atômica utilizada numa guerra até então convencional. Naquela cálida manhã do verão japonês, o avião conhecido como Enola Gay, assim batizado em homenagem a Enola Gay Tibbets, mãe do piloto que o conduzia, o coronel Paul Tibbets, da Força Aérea do Estados Unidos, largou sobre a cidade de Hiroshima um artefato com potência equivalente a 15 quilotons de trinitrotolueno (TNT). Apenas para que se tenha uma noção aproximada, um quiloton representa energia explosiva correspondente a mil toneladas métricas de TNT.

Lançada a pouco mais de nove mil metros de altura, a bomba, que, numa demonstração de cinismo, tinha o codinome de little boy, explodiu a cerca de 600 metros do solo, causando indescritível devastação. Se, para a destruição de centros urbanos alemães, as forças aliadas executaram bombardeios contínuos, ao longo da guerra, em operações realizadas, à noite, pelos ingleses, de dia, pelos americanos, utilizando várias toneladas de bombas – incendiárias, de fósforo, de alta combustão, além daquelas que eram carregadas com fluídos inflamáveis –, para a devastação de Hiroshima bastou apenas um artefato, lançado uma única vez.

Essa eficiência da bomba atômica, contudo, não é, nem de perto, a principal diferença existente entre ela e as armas convencionais, pois, para além do seu poder destrutivo imediato, o explosivo despejado pelo Enola Gay resultou em danos de maior extensão e gravidade, sobretudo porque as vítimas do artefato nuclear formaram um quadro mais complexo, capaz de ser dividido em categorias: quem se encontrava próximo ao epicentro, a uma distância inferior a dois quilômetros, morreu na hora, sucumbindo a uma temperatura de um milhão de graus Celsius. Outros, mais afastados do local da explosão, morreram aos poucos, ao longo do tempo. Dentre essas pessoas, um número nada desprezível se arrastava pelas ruas, como zumbis, cuja pele derretia: quem trajasse roupa branca, a pele que se desfazia era aquela das partes do corpo que estivessem expostas; os que, no entanto, vestiam roupas pretas, absorveram o calor da explosão, e o derretimento foi generalizado. Num caso ou noutro, essas pessoas, pedindo desesperadamente que lhes dessem água, tamanha a sede que sentiam, passaram a vagar por uma Hiroshima devastada, como mortos-vivos de um filme de terror.

Algumas vítimas, se não sofreram com queimaduras, despontaram com estilhaços de vidros cravados pelo corpo; outras desenvolveram toda sorte de doenças nos meses, anos e décadas que se seguiram ao ataque, tendo como sintomas vômitos, sangramento nas gengivas, diarreias, erupções ou manchas na pele, além de leucemia, linfoma, cânceres de pulmão, estômago, fígado e intestino.

Não bastassem essas vítimas imediatas, igualmente afetadas foram as pessoas que, embora não estivessem na cidade no momento da explosão, expuseram-se à radiação, quando se colocaram em busca de parentes e amigos, ou ainda aquelas que, embora não nascidas, formaram uma categoria à parte de sobreviventes: os sobreviventes in utero. Eles não viveram a guerra, nem viram a bomba explodir, mas sofreram seus efeitos, alguns com graves deformações físicas, como bebês de duas cabeças ou que desenvolveram doenças ao longo dos primeiros anos de vida, tendo morrido antes mesmo de chegar à adolescência.

Por fim, coroando esse festival de horrores, os sobreviventes da bomba sofreram ainda com o preconceito, que persiste até hoje. Como se não fossem suficientes a pele derretida, as gengivas em sangue, os cânceres e as deformações, os sobreviventes de Hiroshima e seus descendentes tiveram igualmente de conviver com a ignorância daqueles que evitavam envolver-se com pessoas expostas direta ou indiretamente à radiação. A fim de evitar que não lhes faltassem pretendentes para casar, muitas pessoas escondiam sua condição de sobrevivente in utero. Outras sequer sabiam que se encontravam nessa categoria, pois foram seus próprios pais que não lhes contaram, justamente para que não se vissem diante do dilema de, no futuro, revelar ou não a seus parceiros o problema que carregavam.

Nunca houve, por parte dos Estados Unidos, um pedido formal de desculpas pelo massacre que rivaliza em horror com o holocausto, nem mesmo quando Barack Obama esteve em Hiroshima, em 2016, na primeira visita ao local de um presidente norte-americano em exercício. Ao contrário, não faltam estadunidenses que justificam o uso da bomba atômica, argumentando que ela poupou a vida de um milhão de soldados americanos. Não existem, contudo, provas de que isso seja verdade. Mas, ainda que existissem, por que não se lançou a bomba no mar ou sobre alguma ilha próxima à costa japonesa? Isso mostraria ao Japão que qualquer resistência à capitulação incondicional seria inútil. Mostraria também ao mundo e, sobretudo, à União Soviética, do que os EUA eram agora capazes de fazer. Washington, contudo, optou por cometer um crime, não somente contra Hiroshima, mas contra a humanidade, pois não há argumento capaz de justificar moral ou juridicamente a instrumentalização de pessoas inocentes, algumas que sequer tinham nascido, para salvar a vida de quem estava disposto a correr o risco de perdê-la.