Intervenção militar: 50 tons de verde

Geraldo Miniuci

29 Maio 2018 | 11h25

O que pode levar alguém a pedir intervenção militar? Por que há pessoas, numa manifestação como a dos caminhoneiros, que clamam pelas forças armadas? Por que há aqueles que, embora não engrossem o coro, calam-se, toleram e, portanto, consentem que semelhante proposta seja veiculada em suas frentes de luta?
Quem pede intervenção militar clama por uma estrutura autoritária. Não há conteúdo nessa proposta. Trata-se apenas de uma estrutura, cujo conteúdo, isto é, seus objetivos e as ações para alcançá-los, será dado pelos grupos políticos, econômicos e sociais aliados dos militares. Semelhante aliança permitirá, de um lado, a imposição sobre o resto da sociedade das preferências dos agentes que capitanearem o movimento e, de outro, permitirá também a repressão a qualquer oposição política, a qualquer manifestação como a dos caminhoneiros, a qualquer greve, bem como, no plano social, a qualquer atitude destoante da moral e da religião dos grupos aliados.
Daí a pergunta que abre este artigo: por que, no caso dos caminhoneiros, há quem defenda a introdução de uma estrutura autoritária, que não lhe permitirá manifestar-se ou fazer reivindicações, sobretudo em segmento tão estratégico tanto para a economia, como para a segurança nacional? Clamar por uma estrutura autoritária somente faz sentido se a reivindicação for feita por alguém que sabidamente irá beneficiar-se dela, isto é, determinados grupos políticos, econômicos e sociais; do contrário, essa atitude não se explica racionalmente. Por que cidadãos que se dizem indignados com a corrupção pedem intervenção militar, se uma das características das estruturas autoritárias é a falta de transparência e de fiscalização independente? Como esperar que se combata efetivamente a corrupção, numa sociedade corrupta, se não houver, ao menos, uma estrutura democrática e aberta?
Estruturas autoritárias, por não possuírem mecanismos transparentes de fiscalização e controle, são inadequadas para combater a corrupção. Pelo contrário, elas a facilitam. Os casos Lutfalla, Capemi e Coroa-Brastel são apenas alguns exemplos, dentre os conhecidos, do que já ocorreu durante o regime militar, no nível dos escalões superiores do poder. Nos escalões inferiores, registrem-se, sempre a título de exemplo, o envolvimento, na década de 1970, de sargentos, capitães e cabos com o contrabando carioca, e a criação do esquadrão da morte, grupo paramilitar responsável por execuções extrajudiciais.
Se uma estrutura autoritária beneficiará apenas determinados segmentos da sociedade, defendê-la somente será possível se houver má-fé ou ingenuidade de quem clama por intervenção militar: a má-fé dos que pretendem, com apoio das armas, impor sua política, sua agenda econômica e sua moral, e a ingenuidade daqueles que parecem ter um certo fetichismo por armas, fardas e chicotes, pessoas que, sem nenhuma preocupação com as consequências de suas fantasias, deixam-se enlouquecer pelo hino nacional, pelas botas e pelos músculos de bravos soldados em uniforme de campanha, com cinquenta tons de verde, armados até os dentes, sinceramente dispostos a morrer pela pátria.
O autoritarismo exerce um fascínio difícil de ser explicado. Falta de educação? Não necessariamente. Heidegger a tinha, e nem por isso deixou de apoiar Hitler. Parece haver, no Brasil, uma inexplicável preferência por estruturas autoritárias, combinada ao mesmo tempo com a omissão coletiva daqueles que não reagem perante os clamores por intervenção militar.
Má-fé, ingenuidade e omissão, são esses, portanto, os ingredientes de uma combinação explosiva que temos nesses dias que correm. Mais difícil do que explicar a má-fé das pessoas é entender as razões de quem, não tendo má-fé, mostra-se, não obstante, ingênuo ou omisso, quando não ambos. Pessoas como o caminhoneiro que se manifestava pedindo o estabelecimento de uma estrutura autoritária que o iria proibir de manifestar-se, pessoas que acreditam no autoritarismo como solução e pessoas que assistem a tudo isso caladas, entendê-las, eis o desafio para as ciências humanas.