O estrangeiro, Santos Dumont e Pelé

Geraldo Miniuci

22 Março 2018 | 10h23

Noticiam os jornais que, em Roraima, brasileiros expulsaram imigrantes venezuelanos de um abrigo e atearam fogo a seus pertences. Não foi o primeiro ataque do gênero, e há rumores de que outros ainda deverão ocorrer. Agressões como essa acontecem também em outras cidades brasileiras. Bolivianos, camaronenses, congoleses, haitianos, sírios, eis algumas nacionalidades de vítimas dos atos de xenofobia praticados país afora. Mas o que torna possível episódios como esses?

No Brasil, existem dois tipos de agressões contra estrangeiros: de um lado, aquelas praticadas por criminosos comuns contra turistas desavisados ou desatentos; de outro, agressões como a ocorrida em Roraima, em que a vítima não é turista distraído, mas um grupo de pessoas atacado por brasileiros que não são necessariamente criminosos comuns, e sim indivíduos tomados por instinto animalesco, do quilate de um neandertal, menos interessado em euros, máquinas fotográficas ou pulseiras da vítima do que em simplesmente expulsá-la do solo pátrio. Trata-se de um conflito que tem na identidade o seu principal estímulo. Menos por causa do esgotamento dos sistemas de saúde e de assistência social em Roraima, ou da saturação do mercado de trabalho no Brasil, ou de uma luta de classes, e mais em razão do sentimento de pertencer a uma nação, do orgulho de si próprio e da aversão ao estrangeiro, é que existe a xenofobia.

Há, por certo, outros tipos de identidade coletiva no Brasil, além da nacional, algumas de formação histórica, como a identidade dos grupos religiosos ou dos grupos étnicos, outras no contexto de luta por respeito e, se possível, reconhecimento, como as identidades dos grupos raciais, do grupo LGBT e das classes sociais. Dessas, somente a identidade religiosa tem força para desafiar a nação. Na prática, contudo, ambas se acomodam no discurso dos partidos de direita, e no imaginário de seus membros. Já no discurso e no imaginário dos partidos de esquerda (ou daqueles que se vestem de vermelho e se dizem de esquerda), a religião não rivaliza com a nação. Grupos religiosos merecem reconhecimento e respeito, assim como outros grupos sociais, mas isso não implica que possam colonizar o restante da sociedade.

Apesar dessas diferenças, no entanto, esquerda e direita no Brasil compartilham a mesma fé no deus da modernidade, aquele adorado tanto por ateus, como por crentes: a nação. Essa peculiaridade torna os 20 anos de regime militar semelhante aos 14 anos de governo do PT: se, nos anos de chumbo, houve um fortalecimento do poder executivo, criação de estatais, monopólio da importação do petróleo e protecionismo econômico, nos tempos de Lula e Dilma, observaram-se fenômenos como a exigência de conteúdo nacional nas compras da Petrobrás ou a imposição de tarifas sobre automóveis. No plano da política externa, o nacionalismo petista manifestou-se sobretudo no empenho demonstrado pelo governo Lula não em reformar a oligarquia que impera no sistema das Nações Unidas, mas em fazer parte dela, reclamando um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

Em suma, da esquerda à direita, passando pelos principais meios de comunicação, o Brasil é um país de discurso único, digno de uma ditadura, com a diferença de que, nestas plagas, a fé nacionalista não precisa ser imposta. A adesão é voluntária. O que a torna possível? Eis um tema para quem estuda psicologia de massas.

Assim, não causam surpresas os ataques contra estrangeiros e a crescente xenofobia no Brasil. Já existe uma predisposição da sociedade, não importa a coloração política, em comportar-se de modo arrogante e pretensioso perante o resto do mundo, seja acreditando-se detentora do monopólio da felicidade, do jogo de cintura, da malandragem, seja fazendo um juízo favorável a respeito de si mesma, considerando-se cordial e hospitaleira. Em semelhante ambiente ganham força teses como a necessidade de restrição à entrada no mercado de trabalho de mão de obra proveniente de outros países, a proibição de votar e de ser votado imposta ao estrangeiro que não tenha se naturalizado, pouco importa se, de fato, ele reside ou não há muito tempo no Brasil, e, sim, a tese de que o avião foi inventado por Santos Dumont e de que Pelé é não somente melhor do que Maradona, mas também o maior atleta de todos os tempos.