O general Lee e o pão de queijo

Geraldo Miniuci

24 Agosto 2017 | 16h36

No dia 12 de agosto passado, os protestos em Charlottesville, no estado norte-americano da Virgínia, motivados pela decisão de retirar uma estátua do general Robert Lee de um parque da cidade, alcançaram tamanha intensidade, que pessoas foram mortas. Tudo por causa de um símbolo.

Imaginem, agora, uma estátua de Hitler, no centro de Berlim. Ou que a Ebertplatz, em Colônia, voltasse a ser denominada Adolf-Hitler-Platz. Impensável, não é mesmo? Mas por que admitir, então, que uma pessoa como o general Lee, que lutou  pela independência de um país escravocrata, na guerra civil norte-americana, seja homenageado e lembrado? Terá a escravidão sido menos nefasta do que o holocausto? Sem dúvida que o militar não foi responsável pela introdução do trabalho escravo, mas defendeu-o, ao lutar pela independência de um Estado que teria na supremacia racial um de seus fundamentos. Bateu-se por valores qualitativamente semelhantes aos de Hitler. Por que, então, seria justo render-lhe homenagens póstumas, transformando-o em estátua?

É sempre muito complicado estabelecer uma linha demarcatória entre o que pode ou o que não poder ser tolerado nesse nível. Se admito homenagens ao general Lee, porque não posso admiti-las a Hitler? Enquanto a guerra civil norte-americana chega a ser apresentada e representada com temperos românticos, o que condiz com a proliferação de símbolos relativos ao período, a representação simbólica do III Reich mantém viva não a memória do bravo soldado alemão, mas a das vítimas e das atrocidades que elas sofreram. Noutras palavras, as gerações que surgiram após a guerra-civil norte-americana mantiveram viva a memória confederada, enquanto as gerações que surgiram após a II Guerra Mundial colocaram o nazismo e mesmo a Alemanha e os alemães no banco dos réus da história.

Embora tenham perdido a guerra, os confederados não mudaram sua concepção de vida em relação aos negros, e o espaço da confederação derrotada tornou-se palco de hostilidades de toda sorte contra a população afro-americana, que passou a ser vítima de um terrorismo branco, do qual a Ku Klux Klan (KKK) é o melhor exemplo. Já a Alemanha foi estimulada, inicialmente pelas forças estrangeiras de ocupação, depois por suas próprias forças políticas internas, a rever seu passado: houve processo de desnazificação, julgamento de lideranças, punição de responsáveis e permanente esforço de manter viva a memória das vítimas. Em semelhante ambiente, não há muito espaço para exaltar soldados institucionalmente.

Mas, para além das instituições, no plano social, não somente a memória do general Lee, como também a de Hitler ou do nazismo são hoje evocadas por determinados grupos, formados por pessoas abertamente preconceituosas e violentas que, considerando-se superiores, não apenas se negam a reconhecer a dignidade dos que qualificam como seus inimigos (negros, judeus, muçulmanos, homossexuais), como sequer lhes toleram a existência. Num mundo onde se condena a violência do terrorismo, mas onde, ao mesmo tempo, a violência das guerras e revoluções é relembrada e glorificada, manter símbolos que são venerados por pessoas desse quilate significa um estímulo ao ódio e, portanto, à contradição de tolerar a intolerância.

A morte de pessoas em decorrência de disputas em torno de estátuas mostra que há algo de podre na alma humana que nenhuma educação, nenhum doutorado corrige e que leva a bizarrices como esses conflitos. Talvez um alívio para semelhante tensão passe por homenagear menos quem matou ou morreu, e mais quem resistiu pacificamente, quem aprimorou o conhecimento, quem inventou, enfim, quem, de algum forma, fez avançar as ciências, a economia, o direito, as artes e, por que não, a gastronomia. Em vez de membros de uma realeza escravocrata, generais comprometidos com ditadura militar ou soldados desconhecidos, que tal homenagear, por exemplo, os inventores desconhecidos da cerveja e do vinho? Ou, senão, a pessoa que criou a receita do pão-de-queijo, elevando-lhe um monumento nalgum lugar em Minas Gerais? Não haveria polêmica, nem seria semelhante obra objeto de adoração de lunáticos, mas apenas uma justa homenagem a quem inventou tão deliciosa iguaria.