O poste e o professor

Geraldo Miniuci

18 de maio de 2021 | 08h00

Era uma vez um poste. Nem alto, nem baixo, apenas mediano, com sua luz pálida, que pouco iluminava, servindo apenas para transformar pedestres em sombras assustadoras, numa rua escura e perigosa. Tinha um estilo clássico, o design de uma época em que postes como ele brilhavam, não porque sua luz fosse outra, mas porque as demais luzes haviam sido reduzidas à condição de lamparinas, que mal permitiam ler um livro de receitas.

Ultrapassado, sua principal função, na realidade, era menos iluminar do que servir de amparo para uma fiação externa velha e corroída, sobre a qual nem os passarinhos pousavam. A lâmpada branca e pálida que nele se pendurava era meramente acidental, um ganho de importância menor, se comparado com a função de sustentar todos aqueles fios.

Apesar de tanta precariedade, moradores e transeuntes daquela rua nada faziam, a não ser esperar que algum dia as coisas melhorassem. Uma vez, num primeiro momento incrédulos, muitos desses moradores e transeuntes testemunharam faíscas que estalavam aqui e ali, quando um fio esbarrava em outro. Não obstante o perigo que isso representava e sem esconder o orgulho de testemunhar algo grandioso, como faíscas que estalam de uma fiação corrompida e ameaçadora, vários desses moradores e transeuntes, com a felicidade de uma criança, sacaram seus celulares e puseram-se a fotografar aquele espetáculo. Uma tragédia se anunciava; as faíscas eram apenas o aviso de que, a qualquer momento, poderiam ocorrer catástrofes de dimensões bíblicas, mas nada se fez, exceto fotos para as redes sociais.

Certa feita, caminhava pela rua um professor. Já era alta madrugada; o docente vinha de uma festa, quando resolveu entrar num bar para tomar um último copo de cerveja. Bebeu, pagou e, antes de sair, foi ao banheiro, que, contundo, estava inutilizável. Tanto na área dos mictórios, como na do reservado, cobria o chão uma poça d’água da qual exalava um forte cheiro de amoníaco misturado com fezes. “Melhor esperar até chegar em casa”, ponderou o professor.

Saiu do bar, ganhou a rua e se pôs a caminhar a passos largos e apressados. “Chegarei a tempo?”, perguntou-se. A vontade de ir a um banheiro era muito forte, cada vez mais forte. Começou a suar frito. Num instante, veio-lhe à mente a lembrança de certa vez em que molhou parcialmente a calça bege que vestia, pois não lhe foi possível chegar a um reles mictório. Pensou na vergonha que sentira. Estava decidido a nunca mais passar por tamanho vexame. Sim, era de madrugada, dificilmente encontraria alguém, mas nem por isso iria mijar-se nas calças.

Foi quando viu o poste. “Será ali”, decidiu sem hesitar. O lugar era ideal: “mal iluminado, a essa hora, mesmo que passe alguém, talvez nem me note”, pensou.

De todo modo, não havia mais tempo para ponderações. Acercou-se do poste, abriu a braguilha de sua calça, que dessa vez, por sorte, era preta, e aliviou-se. Naquele mesmo instante, sopra um vento forte, aumenta o farfalhar das árvores, e o conjunto da fiação externa começa a balançar e a soltar faíscas. O professor foi atingido por algumas, mas não se feriu. “Nossa, perigoso por aqui”, exclamou enquanto chacoalhava as últimas gotas, “parece até que o poste ficou bravo comigo”.

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