O vermelho e o verde-e-amarelo

Geraldo Miniuci

16 de junho de 2020 | 09h37

No último domingo, não obstante a pandemia ora em ascensão, manifestantes ganharam as ruas de São Paulo, exibindo suas cores. No Viaduto do Chá, encontravam-se os apoiadores de Bolsonaro, com o verde-e-amarelo do qual se apropriaram e que compõe sua identidade; na Avenida Paulista, seus opositores. Como se sabe, nem todos que desejam a deposição de Bolsonaro são de esquerda, mas todos que ali compareceram mais do que desejam, exigem o respeito à democracia e às suas instituições. Para muitos, contudo, faltam cores que os representem, e o vermelho termina por sobressair-se, pois militantes de esquerda há que insistem em participar das manifestações com suas bandeiras e estrelas vermelhas, suas camisetas com a sombra de Che Guevara estampada, formando um conjunto que, além de caricato, demonstra absoluta ignorância a respeito da ação estratégica, em que se procura deixar momentaneamente de lado aquilo que divide os cidadãos, para não prejudicar um projeto que é de interesse geral. Com isso, o movimento que deveria apresentar-se como suprapartidário aparece como de esquerda, espantando pessoas que igualmente defendem a democracia, mas que sofrem de um não menos caricato antipetismo.

Como parece pouco provável que os manifestantes de esquerda portadores de estandartes abdiquem de seus uniformes, talvez fosse interessante se os demais manifestantes igualmente levassem suas bandeiras, a fim de impedir que sobressaia a cor vermelha que tanto irrita parcela da população. E se o grupo a que pertence a pessoa não possuir cores próprias, que se aproprie, então, do verde-e-amarelo, que também lhe pertence e faz parte de sua identidade, em vez de simplesmente sentir vergonha de ser brasileiro.

Foi com curiosa facilidade que a extrema-direita, no Brasil, se apropriou dos símbolos nacionais, pois, ainda que o nacionalismo seja elemento constitutivo do discurso dos partidos de extrema-direita mundo afora, neste país, ideias nacionalistas são também comungadas pela esquerda, nalguns casos com fervor idêntico ao de um bolsonarista raiz, não obstante a incompatibilidade entre socialismo e nacionalismo. Por isso, nada impediria aqueles que, mesmo insistindo em vestir-se de vermelho, levassem ao menos a bandeira nacional nas manifestações, mostrando que o movimento político é, antes de mais nada, suprapartidário, em favor das instituições democráticas.

A crise política no Brasil transcende os limites da racionalidade. Ela se desenvolve num plano em que há muito de passional nas atitudes dos dois lados da disputa. Existe ódio, muito ódio no ar, e uma total indisponibilidade para o diálogo. Os argumentos apresentados resultam menos de uma reflexão profunda e cuidadosa, do que de algo que transcende os limites do consciente e que não se explica sem ajuda de psicólogos e psiquiatras. Da mesma forma como, no campo da esquerda, ninguém parece se incomodar com a contradição entre socialismo e nacionalismo, do lado bolsonarista, ninguém se incomoda com a contradição intrínseca entre o universalismo divino, implícito quando se coloca Deus acima de todos, e o provincianismo da Nação, inerente à ideia de que ela se sobreponha e se coloque acima de tudo.

Tanta insanidade não pode ser ignorada, mas, pretender curá-la, isso, por ora, é inviável. Será preciso, antes, assumi-la como dado do problema e entendê-la, para que se possa, depois, lidar com ela. No curto prazo, contudo, precisamos, para combater a irracionalidade de quem coloca o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, da irracionalidade de quem igualmente tem orgulho de ser brasileiro, mas que busca, no seu imaginário, construir uma Nação formada por “brasileiros com B maiúsculo”, para utilizar expressão empregada pelo ex-presidente do BNDES, no primeiro governo Lula, o economista Carlos Lessa, ao referir-se a Celso Furtado. O que significa ser “brasileiro com B maiúsculo”, isso é irrelevante no mundo em que se vive a fantasia da Nação. Nele, a retórica nacionalista fala mais alto, sendo graças a ela que se torna possível colocar em segundo plano as diferenças e as condições de cada indivíduo e grupo social, para transformá-los todos em orgulhosos membros de uma Nação, uma ideia que, no passado, surgiu e desafiou o poder da Igreja, fazendo triunfar o provincianismo nacional sobre o universalismo de Deus, e que hoje contribui para elevar a autoestima do analfabeto que se sente orgulhoso de si mesmo, porque seu conterrâneo ganhou o Nobel de literatura — e, no caso brasileiro, porque seu presidente colocou o seu país acima de tudo.

Em suma, se tanto a extrema-direita como a esquerda brasileira, por comungarem dos mesmos sentimentos nacionalistas, vivem a fantasia da Nação, cabe, então, à esquerda, nessa luta, em vez do vermelho, resgatar o verde-amarelo e os símbolos nacionais, exibi-los, mostrando que também são seus, e que seu amor pela pátria não é menor do que o amor que um oficial de alta patente das forças armadas sente pelo Brasil.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.