Os eleitores de Bolsonaro

Geraldo Miniuci

15 de outubro de 2018 | 10h47

Bolsonaro personifica as aspirações de, pelo menos, sete segmentos da sociedade brasileira: o dos agentes econômicos, que aguardam medidas liberalizantes, acompanhadas de enxugamento do Estado e da carga tributária; o das vítimas da violência urbana e das pessoas irritadas com a impunidade; o dos antipetistas que, com a paixão de torcedor de futebol, nada mais desejam do que o aniquilamento do PT; o dos intolerantes, que se sentem cada vez mais livres para expressar toda aversão que têm por gays ou por aqueles que assumem comportamento desviante do padrão mantido pela sociedade; o de grupos religiosos que, com o esperado apoio do Estado, poderão impor sua agenda de valores; o segmento dos que, revoltados não apenas contra o PT, mas contra todo o sistema político, se identificam com o discurso do candidato do PSL, a quem enxergam como alternativa amarga, porém necessária para dar cabo de um sistema corrupto e viciado, e, por fim, o segmento dos golpistas que esperam uma intervenção militar e, com ela, o fim da democracia.

Evidentemente que essa classificação é imperfeita, porém ela serve para começarmos a refletir sobre os apoiadores de Bolsonaro. Algumas pessoas podem ser, ao mesmo tempo, liberais, vítimas da violência, antipetistas, intolerantes, religiosas, revoltadas contra o sistema e, com todas essas características, igualmente golpistas. Mas nem todas são assim. Há quem defenda o liberalismo econômico sem muita preocupação com a sorte da comunidade LGBT ou com a colonização da sociedade por grupos religiosos, embora sejam contra golpes de Estado, e, se apoiam Bolsonaro, é porque acreditam que a ordem institucional será mantida. Há quem somente o apoie pelos valores morais que defende e pela oportunidade de impô-los, tendo à disposição o aparelho de Estado e seus ministérios. Há quem o apoie apenas por enxergar nele uma oportunidade para destruir o PT e mudar o sistema político, sem importar-se com as questões econômicas ou sociais, ou quem o apoie porque se deixa seduzir pelo discurso militarista, belicoso e agressivo do candidato, ou simplesmente porque ele verbaliza e amplifica na esfera pública a revolta contra a militância feminista ou contra as formas politicamente corretas de comunicação que, concebidas para não ofender mulheres ou grupos sociais, em vez de assimiladas, causam, ao cabo, reações emocionais adversas.

Enfim, uma pessoa pode apoiar Bolsonaro por uma, por todas ou, se não, por apenas algumas dessas razões. Aqueles que são contra golpes ou qualquer tipo de violação da ordem institucional dão um crédito de confiança ao candidato, esperando que possam, inclusive, destitui-lo, dentro de quatro anos, caso ele não os satisfaça. Se Bolsonaro será ou não capaz de um autogolpe, essa possibilidade existe, a julgar pelas palavras de seu candidato à vice-presidência, mas a probabilidade de que isso venha, de fato, a ocorrer não pode, neste momento, ser aferida. Movimentos políticos dessa natureza precisam de apoio interno e reconhecimento externo. Internamente, nem todos os seus eleitores são golpistas; externamente, quem reconheceria um governo sem legitimidade? Bolsonaro é criticado até pela extrema-direita francesa.

A curto e médio prazo, contudo, pode-se temer pelo acirramento das tensões sociais. Não será necessária uma ditadura ou torturadores para atentar contra a integridade física de uma pessoa; essa violação resultará do próprio conflito entre homofóbicos e membros da comunidade LGBT, ou entre grupos religiosos, ou ainda entre fazendeiros e populações indígenas, apenas para dar alguns exemplos.

Ao afirmar, em entrevista, que a “minoria tem que se calar, se curvar para a maioria”, Bolsonaro assusta qualquer grupo minoritário, incluindo refugiados e migrantes em geral, mas, ao colocar o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, ele deveria assustar a totalidade das gentes que habitam este país, porque Nação acima de tudo significa uma coletividade que se sobrepõe aos indivíduos, de quem se esperam sacrifícios, inclusive da própria vida, se necessário for. O interesse privado não terá precedência sobre os mais elevados interesses da Nação. O coletivismo aqui é evidente, e a aniquilação do indivíduo, também. Do ponto de vista da teoria política, isso nada tem de compatível com o liberalismo, que considera como fundamento da sociedade os valores individuais de liberdade e igualdade.

Quanto a colocar Deus acima de todos, Bolsonaro sinaliza que as relações entre Estado e instituições religiosas no Brasil seguirão o atual modelo: Estado laico, que não interferirá nos assuntos das igrejas, mas que não estará, ele próprio, imune à interferência das instituições religiosas e de seus líderes nos assuntos estatais. Se Deus está acima de todos, legitimam-se as imposições feitas em nome do divino, nos mais diversos domínios, tanto na sociedade, como no âmbito do poder político.

Em vista disso, pergunta-se, caso eleito, colocará Bolsonaro em prática aquilo que, por ora, muitos consideram mera retórica de campanha política, ou adotará ele tom mais conciliador, colocando a humanidade acima de tudo e deixando Deus para o coração e a mente dos fieis?

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