Os impactos de um vírus

Geraldo Miniuci

24 de março de 2020 | 08h48

Nossa geração vive, com o cornavírus, um momento ímpar da história. Não que isso deva ser motivo de regozijo de quem desfruta um privilégio. Pelo contrário. Quem viveu a II Guerra Mundial também testemunhou momento histórico de inegável importância, mas muitos dessa época talvez tivessem preferido não a ter vivido. São acontecimentos como esses, porém, que estimulam mudanças e exigem criatividade tanto para novos problemas que surgem, como para velhos que ainda persistem e atravancam o desenvolvimento.

A pandemia que ora vivemos, embora essencialmente um problema de saúde, repercute para além dos hospitais, atingindo as três dimensões existentes na organização de uma sociedade: a política, a econômica e a social.

Na política, verificam-se repercussões tanto no plano interno, como no internacional. Internamente, sobretudo em países europeus, nota-se, de um lado, o acirramento da xenofobia combinado com propostas de fechamento de fronteiras. Convencidos de que podem resolver um problema transnacional tomando medidas nacionais, partidos de extrema-direita propõem o isolacionismo.

De outro lado, porém, nota-se igualmente que o coronavírus mostrou a irrelevância das fronteiras nacionais, como elas são vulneráveis a um reles micro-organismo, que atravessou o mundo, do extremo-oriente ao extremo-ocidente, sem que nenhum exército pudesse bloqueá-lo. Se até chefes de Estado, com toda a proteção de que desfrutam, são infectados, ninguém estará imune a ação do vírus erguendo muros. Não se trata de problema exclusivo a migrantes, de modo geral, ou a refugiados, em particular. Não. O coronavírus não faz distinção entre as gentes e os grupos que compõem a sociedade, entre o banqueiro da classe executiva e o refugiado da embarcação superlotada. Conter o bote na perigosa travessia do Mediterrâneo não conterá o vírus que chega de avião.

No plano internacional, os Estados podem reagir à existência e ao impacto do coronavírus por duas vias. A escolha de uma ou de outra dependerá dos pressupostos que orientam as ações estatais: se multilateralista ou nacionalista. O multilateralismo exigirá coordenação; o nacionalismo estimulará competição. O multilateralismo admitirá o fechamento de fronteiras por razões sanitárias; o nacionalismo, por razões ideológicas, de quem coloca a Nação acima de tudo, inclusive da saúde pública.

Já no que se refere às repercussões do coronavírus no plano econômico, nota-se, de um lado, queda da produção de bens e do volume de comércio; de outro, no âmbito das relações de trabalho, em que o perigo de contágio estimulou a reorganização das atividades que envolvam o comércio de bens e serviços, surge como alternativa o trabalho em domicílio. Não deverá causar estranheza se essa alternativa, no futuro, tornar-se regra, sobretudo depois que forem contabilizados os valores economizados pela empresa com a inevitável redução do consumo de energia elétrica e de água que o trabalho em domicílio ensejará.

Finalmente, temos, na dimensão social, desafios que afetam indivíduos e coletividade. No plano individual, relacionamentos serão colocados à prova: pessoas que, vivendo sob o mesmo teto, apenas se toleram, e a tolerância é possível porque se veem pouco, agora estarão submetidas à rotina de uma convivência diária, por sabe-se lá quanto tempo. Mas, para além de suas relações neuróticas, o indivíduo terá diante de si duas opções para lidar com a pandemia: ou assume atitudes altruístas e cooperativas, procurando fazer o que estiver ao seu alcance para que ninguém em seu entorno se contagie, ou segue pelo egoísmo e faz estoque de álcool em gel e de papel higiênico.

No plano coletivo, registram-se manifestações xenófobas, agressões a falsos culpados, e muita notícia de veracidade duvidosa. Além disso, há os desafios para o conjunto das pessoas que, por falta de teto, não terão como isolar-se e precisarão de socorro, assim como para outras que, embora tenham teto, vivem em espaço apertado, todas muito próximas fisicamente, ao lado de habitações em igual situação, colocando-se permanentemente em situação de risco.

Nada parece escapar da ação desse vírus. Mesmo quem não foi ainda infectado vê-se na contingência de mudar de hábitos, submetendo-se a restrições para que não se contamine. Mas o principal efeito talvez tenha sido o de colocar à prova os diversos sistemas de saúde existentes no mundo, bem como a capacidade de reação das coletividades e, sobretudo, dos Estados. Ao que tudo indica, a pandemia parece estar sob controle na China, mas em franca expansão na Itália. Por quê? Como ela vem sendo enfrentada na Ásia, na Europa e na América do Sul? Estudos comparados dessa natureza, em que se descrevem experiências para lidar com problemas comuns, poderão não somente revelar o que se conseguiu de melhor no mundo para enfrentar essa pandemia, como também explicitará a capacidade de mobilização e de ação não somente da máquina do Estado, como também dos governos e dos indivíduos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.