Os sobreviventes

Geraldo Miniuci

29 de março de 2020 | 07h59

No último dia 24 de março, escrevi neste espaço que, embora um problema de saúde, a pandemia do coronavírus “repercute para além dos hospitais, atingindo as três dimensões existentes na organização de uma sociedade: a política, a econômica e a social”. Ao discorrer sobre a dimensão econômica, referi-me à já sensível queda das atividades produtiva e comercial. Trata-se de ponto importante e não negligenciável. As restrições da quarentena podem comprometer irremediavelmente as atividades de trabalhadores autônomos, de empresas, de fábricas, de companhias aéreas, de hotéis, de comerciantes, enfim, de diversos agentes econômicos. Famílias não terão recursos para o aluguel, nem para o supermercado. A depender da duração da pandemia, muitos perecerão, mas, a menos que tenhamos, agora, sim, chegado ao fim da história, haverá sobreviventes. Resta saber quem serão eles.

Tudo depende das providências que tomarem hoje os Estados e as organizações envolvidas com o tema. Acredita-se que haja, pelo menos, duas direções que podem ser tomadas. De um lado, mediante intervenção estatal, de variada configuração: desde planos em que se preveja concessão de crédito especial em favor de pequenas, médias e grandes empresas para evitar falência, passando pelo financiamento público em favor do empregador para reduzir número de horas de seus empregados, pela prorrogação do prazo para pagamento de impostos, pela moratória de hipotecas, pela ajuda a trabalhadores autônomos, pela isenção de pagamentos à previdência social, até a manutenção do fornecimento de água, luz e dos serviços de internet para quem não pode pagar, várias são as modalidades de intervenção estatal. Até dos EUA, país de tradição liberal, chegam notícias de pacote econômico para ajudar desempregados e indústrias e também para injetar bilhões de dólares a serem usados na compra de equipamento médico. Registra-se, ainda, que o Federal Reserve deverá reduzir as taxas de juros e comprar títulos para aumentar a liquidez. No Brasil, foi aprovado o estado de calamidade pública, medida que permitirá maior flexibilidade na gestão do orçamento. O Ministério da Economia também deverá injetar dinheiro no mercado, e a Câmara do Deputados aprovou projeto, em que se prevê auxílio para trabalhadores informais e mães encarregadas do sustento da família.

O outro caminho apresentado como possível para evitar o colapso da economia seria, em vez de aumentar os gastos do Estado, retomar as atividades, colocando em quarentena apenas os grupos de risco. A isso denomina-se isolamento vertical. Trata-se de proposta que talvez faça sentido, se implementada no momento correto, quando a pandemia começar a ceder, mas, se adotada prematuramente, com o objetivo de salvar a atividade e os agentes econômicos, poderá colocar em risco a saúde humana.

Qual caminho seguir? Aumentar a presença do Estado, inclusive com estatizações, como já se cogita na França, ou retomar as atividades, seguindo a máxima “O Brasil não pode parar”, e permitir que os próprios agentes econômicos liderem a recuperação, na esperança de salvarem-se a si mesmos, ainda que assumindo o risco de colocar em perigo a saúde humana — a deles e a de toda a gente? Se for o caso de correr esse risco, como calculá-lo? Se não for possível ter uma estimativa de sucesso ou do fracasso dessa estratégia, por que, então, corrermos o perigo que ela enseja? Por que ignorar os alertas da comunidade médica e adotar o isolamento vertical de modo tão açodado?

Em favor dessa proposta, argumenta-se que, sem economia, não haverá nem insumo para os médicos, nem mesmo vida. A isso somam-se previsões catastróficas, em que a quarentena horizontal levará não somente à falência do sistema de saúde, mas também ao aumento da criminalidade, da fome, da depressão e até do suicídio. Com a suspensão das atividades, afirma-se, serviços essenciais deixarão de ser prestados, bens essenciais, de ser produzidos. O colapso será generalizado.

Diante do coronavírus, eis as opções que temos, hoje, como humanidade — e não como chineses ou brasileiros: na luta contra um vírus que ignora fronteiras, ou aceitamos a intervenção do Estado e o fortalecimento do poder público, nacional e transnacional, ou admitimos a morte de alguns, em benefício da maioria e retomamos todas as atividades. Morrem-se uns tantos, salvam-se os negócios. Sabe-se lá por quanto tempo.

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