Política externa sem viés ideológico

Geraldo Miniuci

26 de agosto de 2019 | 10h22

Tem sido frequente o uso do substantivo “ideologia”, bem como do adjetivo “ideológico” no discurso político de membros do atual governo, a começar pelo Presidente da República, que não somente defendeu a necessidade de livrar o Brasil das amarras ideológicas, das ideologias nefastas que destroem valores e tradições, em especial a ideologia de gênero, como também defendeu, em Davos, no início deste ano, uma política externa “sem viés ideológico” (sic).

Esse modo de falar impregnou-se em parcela da sociedade, que repete o conceito e suas derivações à exaustão, deixando de lado estas questões: afinal, o que significam amarras ideológicas, ideologias nefastas, ideologia de gênero ou política externa sem viés ideológico? Evidentemente que um termo como esse, ao cair na vulgaridade, adquire considerável número de significados, mas, se for possível extrair um mínimo denominador comum entre todas as definições propostas, então este, que ideologia designa o conjunto de valores e de ideias vigentes numa determinada realidade social e histórica que orientam as ações tanto da sociedade, como de seus membros individualmente considerados. Noutras palavras, a ideologia é o valor dos valores, e quando Bolsonaro, membros de seu governo ou seus eleitores se expressam em favor de bizarrices como “política externa sem viés ideológico”, temos uma proposta de ação que, se factível fosse, não se orientaria por valor algum. Ora, como isso é possível? Em que medida um Estado pode agir sem orientar-se por algum valor? Até mesmo quem considera, na comunidade das nações, somente os seus próprios interesses, buscando sempre maximizar vantagens e minimizar perdas, colocando a Nação acima de tudo, abaixo somente de Deus, age orientado por uma determinada ideologia, cujos componentes serão os valores que prezam o Estado nacional, a religião e a competição, em vez da cooperação nas relações internacionais. Não há ação política que não se oriente por uma ideologia, pois, como valor maior, ela é necessária para dar coesão à sociedade e assegurar a coerência das ações realizadas a partir dos valores que o conceito sintetiza.

Por que, então, pretender-se uma política externa sem viés ideológico, sem referência a valores que dão coesão à sociedade representada no exterior por seus diplomatas? Somente o desconhecimento do papel da ideologia pode levar alguém a propor algo como uma determinada política sem viés ideológico.

Esse desconhecimento revela que é possível haver ação orientada por valores de uma ideologia, sem que o agente tenha consciência desses valores, e, caso tenha, irá considerá-los como pressupostos naturais e, portanto, inquestionáveis. Um exemplo nesse sentido nos oferece o conceito de Nação. Como ideologia, a Nação assegura uma identidade individual e outra coletiva. Com isso, torna-se possível ignorar as diferenças sociais e a desigualdade. Em vez de construir-se a identidade individual a partir dessas diferenças, ela é construída a partir da noção de pertencimento à coletividade nacional. Assim, antes de ser identificado como trabalhador ou desempregado, branco ou negro, homem ou mulher, o sujeito é tratado como cidadão nacional, membro de uma Nação que lhe assegura uma identidade e a quem deve não somente lealdade, mas também a disposição pessoal de matar e morrer em seu nome.

Quando colocada acima de tudo, tal como Hitler colocou a Alemanha acima de tudo, a Nação sufoca o indivíduo, fazendo tábula rasa de suas peculiaridades, considerando-o tão-somente como um cidadão desprovido de características individuais. Ser membro da Nação que o estrangula enquanto sujeito estimula, no entanto, sentimentos de orgulho em cada pessoa que se sente honrada por sua nacionalidade e permite que o analfabeto se orgulhe de si próprio porque seu conterrâneo ganhou o prêmio Nobel de literatura.

Ao colocar, em seu discurso político, o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, Bolsonaro explicitou aquilo que gostaria de ver na regência da vida político-social do país, assumindo uma ideologia em que esses dois sujeitos, Brasil e Deus, se acomodam e se tornam fontes de normas fundamentais, de acordo com uma idealização que pretende impregnar a todos que habitam por estas plagas.

No Brasil, encontrar quem negue a existência de Deus não exige muito esforço; já praticamente inexistentes são aqueles que procuram ir além do Estado nacional e pensar novas formas de organização social: da extrema esquerda à extrema direita, a Nação é motivo de orgulho, não havendo quem a questione.

Isso não significa que os interesses nacionais sejam todos definidos da mesma maneira, nem perseguidos do mesmo modo. Cada governo terá suas preferências e suas estratégias de ação, bem como seus princípios orientadores. Quem estiver de acordo com os rumos estabelecidos para o Estado, criticará somente os meios escolhidos ou a coerência da ação empreendida pelo poder público com as preferências oficiais.

Historicamente, a política externa brasileira teve como princípios orientadores a soberania, o desenvolvimento nacional e a não-intervenção em assuntos de outros países. Assim, se, de um lado, o pressuposto era que cada Estado tem autoridade sobre seu território e que um dos principais objetivos do Brasil era buscar parcerias que auxiliassem no desenvolvimento do País, de outro, coerente com o respeito que exigia para si mesmo, o Estado brasileiro sempre se pautou pelo princípio da não-intervenção em assuntos de outras soberanias.

Bolsonaro, porém, afirmou que sua política externa não teria viés ideológico, ao mesmo tempo em que coloca o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, desestimula a cooperação científica internacional e, por fim, manifesta-se publicamente sobre a política interna argentina, expressando preferências partidárias no processo eleitoral daquele país. Percebe-se que houve ruptura com os princípios que nortearam a política externa brasileira nas últimas décadas, mas o que se colocou no lugar foi uma política externa em que se pretende algo que não existe, uma política sem viés ideológico. E, talvez por isso, sem rumo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: