Português: o declínio de um idioma

Geraldo Miniuci

24 de julho de 2021 | 07h41

Terá a nossa geração o ingrato privilégio de testemunhar a extinção, pelo menos no Brasil, do idioma português? Às vésperas da reabertura do Museu da Língua Portuguesa, no próximo dia 31, em São Paulo, essa pergunta se justifica em vista da crescente e constante incorporação de termos em inglês no falar das pessoas, independentemente de ser essa incorporação realizada para suprir deficiência do próprio idioma ou por algum outro motivo que não se conhece. Vejamos alguns exemplos.

Em 2020, a Polícia Militar de Minas Gerais instituiu uma modalidade de patrulhamento, em que dois ou três policiais realizam rondas de bicicleta, num programa denominado “Bike Patrulha”. Já para noticiar que policiais de bases comunitárias da Vila Gumercindo e do Jardim da Saúde, na zona sul de São Paulo, passariam a utilizar, em suas patrulhas, bicicletas doadas pelos moradores desses bairros, um jornal de grande circulação se expressou nestes termos: “Vizinhos fazem vaquinha e doam bikes para policiais fazerem ronda”. O mesmo veículo, em abril deste ano, publicou: “Quarentena fortalece relação com os pets e impulsiona o setor”, informação que teve como fonte o Instituto Pet Brasil.

Há milhares de outros exemplos que ilustram esse estranho desejo de substituir termos já existentes no idioma português pelos seus equivalentes em inglês. Um passeio por qualquer rua em São Paulo mostra que não somente animais de estimação se tornaram “pets”, mas também que liquidações agora são “sale”, os descontos, “off”, e as vendas a varejo, “outlets”. Nota-se também que produtos sem açúcar se tornaram um conceito, “sugar free”; que pão torrado chama-se “toast”; e que, nas lojas do ramo, já não se vendem mais tigela, cumbuca ou cuia, e sim “bowl”, em pronúncia (“bou”) que dificilmente será compreendida por um falante nativo, a menos que more no Brasil.

Se olharmos para o mundo corporativo, não sobra pedra sobre pedra do edifício linguístico: o Diretor-Presidente tornou-se Chief Executive Officer, mais conhecido pela sigla CEO (atenção, a pronúncia usada, aqui, se aproxima mais do inglês do que do português: é “ci”, “i”, “ou”); o Diretor-Financeiro virou Chief Financial Officer, ou CFO (aqui também, “ci”, “eff”, “ou”); o rodízio de funções chama-se “job rotation”, e a reunião anual, “annual meeting”.

Em suma, esses e outros termos diariamente invadem o vocabulário, em praticamente todos os setores da vida humana, daí a pergunta acima proposta: estamos realmente presenciando o fim da língua portuguesa? E, caso estejamos, será esse processo muito diferente de processos que levaram à extinção de tantos idiomas? Afinal, línguas, como qualquer outro fenômeno social, surgem, desenvolvem-se, transformam-se e desaparecem, num desdobramento sobre o qual não se tem muito controle.

Com o idioma português não é diferente. Ele próprio resulta de um longo processo evolutivo: suas origens estão na família linguística indo-europeia, composta por oito grupos linguísticos, dentre eles, o grupo itálico. Desse grupo itálico, ao lado de outros idiomas, fazia parte o latim, que deu origem a diversas línguas, dentre elas a portuguesa. Tido como língua morta, o latim, hoje, fica circunscrito aos rituais do Vaticano; já o português é falado, com regionalismos de toda sorte, em 9 países e em Macau, região autônoma, na costa sul da China.

Todo esse processo evolutivo, porém, levou séculos; nenhuma pessoa individualmente considerada pôde testemunhar tamanha mudança; ninguém nasceu e aprendeu latim e morreu falando português. A passagem de um idioma para outro foi por etapas, compreendendo longas transições no modo de falar. Um processo contínuo e, sobretudo, lento.

A evolução da língua portuguesa, no Brasil, no entanto, segue por uma via, na qual o idioma se vê submetido a uma transformação que, em processo anárquico, ocorre numa velocidade espantosa, a ponto de ser possível hoje encontrar quem nasceu e aprendeu a falar bicicleta, mas morrerá falando “bike”. Capitaneado sobretudo pelos meios de comunicação e pelo mundo empresarial, esse movimento impõe um modo de se expressar sobre toda a gente, que o incorpora, sem esboçar a menor crítica, sem nem mesmo considerar o que essa imposição de um determinado linguajar, preferido por determinados segmentos da sociedade, representa para a evolução dos modos populares de falar e mesmo para a qualidade da língua portuguesa, cujo vocabulário se empobrece.

A continuarmos nesse ritmo, teremos um novo idioma, um dialeto gourmet falado por todas as classes sociais, tanto por quem come pão torrado, como por quem quem pede “toast”. A persistir essa imposição silenciosa de um tipo de linguajar, talvez num futuro não muito distante, os romances venham a ser escritos assim: “Naquele dia estava feliz. A call que conduzira correu bem, seu crush vinha visitá-lo e, melhor de tudo, seu dog, que ficara doente, se recuperou, embora longe de estar fit. O apego que tinha por aquele pet era grande, cuidava dele como se fora seu filho. Um kid. Não fazia muito tempo, levara-o de bike até o pet shop, para dar um up no seu look. Voltaram felizes, ele e o pet, que vinha agora perfumado, num look de red carpet, muito cool.”

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