Quero meu país de volta!

Geraldo Miniuci

17 Novembro 2016 | 13h02

“Quero meu país de volta!”. Eis o que se ouviu no Brasil, durante a campanha do impeachment de Dilma; eis o que se ouviu no Reino Unido, durante a campanha do Brexit; eis o que se ouviu na campanha do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, na sua variante let’s make America great again. Todos querem o próprio país de volta. Mas de volta a exatamente o quê? Ao Brasil da ditadura militar? Aos tempos do império britânico, onde o sol nunca se punha? Aos Estados Unidos dos anos da guerra-fria e da bipolaridade do sistema internacional?

O que está acontecendo no mundo? Em diversas localidades, ocorre o mesmo fenômeno: pessoas abraçam um discurso nacionalista com fervor religioso, querem a volta a um passado na verdade existente apenas no imaginário e, a partir dessa paixão, justificam todo o ódio que destilam pelas ventas. Fornecem combustível para o preconceito, o cerceamento de direitos e a ascensão de tipos como Trump, cuja vitória representa a consagração do discurso abertamente intolerante, homofóbico, racista e misógino. Ainda que o futuro presidente do Estados Unidos venha a moderar suas atitudes, ele foi eleito por quem se deixou seduzir pela sua retórica.

O ódio está no ar. Convencidas de suas próprias certezas, pessoas embarcam numa interminável troca de insultos e de agressões. Tanto após a vitória do Brexit, como após a eleição de Trump, registrou-se um aumento no número de ataques a minorias étnicas na Inglaterra e nos Estados Unidos. No Brasil do impeachment, foram frequentes as manifestações de nojo, do desejo de vomitar porque se ouviu ou se leu algo de que se discorda. No Brasil do pós-impeachment, persistem os sintomas e a ânsia de vômito: aqui também o discurso do ódio pelo outro saiu do armário, assumindo-se abertamente. Se, nos Estados Unidos, latinos são hostilizados; se, na Europa, muçulmanos sofrem idêntica discriminação, no Brasil, lamenta-se que uma estudante atingida por bala de borracha em manifestação política tenha perdido apenas um olho – e não os dois.

Embora qualitativamente semelhante ao ódio que paira nos Estados Unidos e na Europa, o ódio à brasileira, porém, manifesta-se em duas vias: se, nos países do hemisfério norte, as agressões partem de membros de grupos majoritários contra pessoas de grupos minoritários, no Brasil, o conflito opõe aquilo que podemos rudimentarmente considerar como direita e esquerda – e as agressões são recíprocas: se a direita não se vexa de fazer louvas à violência e à ditadura militar, a esquerda tampouco se envergonha de ser arrogante e de acreditar nas próprias certezas com a mesma convicção da direita que festeja balas de borracha: basta, por exemplo, que não se tenha o cacoete do politicamente correto, não adotando linguagem inclusiva de gênero, ou que se questione a política de quotas raciais, e, pronto, isso pode ser suficiente para rotular a pessoa como machista e racista.

Diante desse quadro, pergunta-se: como aqueles que se declaram de esquerda pretendem conquistar as adesões de quem flerta com Bolsonaro? Tolerando a violência dos Black Blocs? Defendendo ditaduras totalitárias? Apoiando populistas como Chaves? Tendo igualmente ânsia de vômito, porque alguém defendeu uma privatização qualquer? Mantendo a postura paternalista de observar e interpretar parcela da população como manipulável e sem autonomia ou características pessoais, como personagens de um romance stalinista de mau gosto, em que se pressupõem a bondade dos despossuídos e a vilania dos possuidores?

Se o discurso da direita brasileira, ao bradar contra o comunismo ou contra Cuba, está com um atraso que passa dos 50 anos, o da esquerda, ao protestar contra o imperialismo, não é mais moderno e, no caso da reação contra a privatização da Petrobras,  remetendo à “Campanha do petróleo”, no final dos anos 1940, chega a ser mais antigo ainda.

Ademais, como parte desse atraso, direita e esquerda, no Brasil, compartilham o mesmo discurso nacionalista, o discurso único presente na abertura dos jogos olímpicos, no Rio de Janeiro, o discurso ideológico da brasilidade, da nação, da pátria, da arrogância em verde e amarelo de quem quer o país de volta. Esse nacionalismo, porém, constitui um obstáculo que prejudica tanto o projeto de uma direita liberal, aberto à livre-concorrência, como o projeto de uma esquerda cosmopolita de superar o próprio Estado. Nenhum desses dois objetivos parece existir no Brasil: em vez de uma direita liberal, há uma direita autoritária, patriarcal e intolerante; no lugar de uma esquerda cosmopolita, grupos cujos membros herdam no sangue uma boa dose de getulismo.