Réquiem para o Reino Unido

Geraldo Miniuci

27 de junho de 2016 | 14h03

O que mais poderá ser ainda dito sobre o resultado do referendum realizado no Reino Unido da Grã-Bretanha?

Por enquanto, nada muda. A União Europeia (UE) deverá negociar e celebrar um acordo com o Reino Unido para estabelecer as condições de sua saída e das futuras relações entre ambos. Mas a decisão tomada por 51,9% dos eleitores ingleses de dar as costas para o futuro e voltar-se para o passado, fazendo dele o seu porvir, terá tantos desdobramentos, que será preciso realizar análises compartimentalizadas, focalizando diversos fatores de natureza política, econômica e social. Não há como calcular as consequências desse divórcio: desde a possibilidade de que outros países da UE sigam o mesmo caminho, e o mundo volte a ter a mesma estrutura do início do século XX, passando pela secessão da Escócia, além do enfraquecimento da própria União Europeia em relação à Rússia, aos EUA e à China, tudo é possível e imaginável na esfera política.

No plano econômico-comercial, já se registram queda acentuada das bolsas de valores, desvalorização da libra, além da insegurança decorrente de dúvidas sobre o comportamento não somente do Reino Unido perante o mercado comum europeu, como também de outros agentes econômicos que, por razões estratégicas, se instalaram no país justamente por ser membro da UE.

Como impactos no plano social, cite-se, por fim, apenas a título de ilustração, a possibilidade de que os jovens venham a perder não somente o direito de viver e trabalhar em outros 27 países, como também incontáveis oportunidades de estudo e de trabalho. Laços pessoais e familiares que se formaram nas últimas décadas também poderão ser afetados. O que acontecerá com os ingleses que moram em outros países da UE? E com os estrangeiros que moram no Reino Unido? Enfim, abriu-se a porta para o incerto.

Quais foram as condições que possibilitaram esse desfecho?

Ensaiam-se diversas explicações: a promessa de aplicar no sistema nacional de saúde os valores enviados semanalmente para a UE; a crença de que essa promessa será cumprida; o voto favorável à saída dado por pessoas de baixa renda, que não teriam se beneficiado da integração; o desprestígio do Primeiro-Ministro David Cameron, que se empenhou na campanha para continuar no bloco; a incapacidade de conquistar o apoio dos eleitores trabalhistas e a distância que se percebeu existir entre eles e os parlamentares de seu partido, majoritariamente a favor da permanência; o voto dos idosos; o déficit democrático da UE, cujas lideranças não podem ser depostas pelos eleitores; o desejo dos ingleses de recuperar o pleno controle sobre suas políticas e, por fim, e sobretudo, a imigração, essa, sim, dentre as demais explicações, talvez seja aquela que, numa escala hierárquica, devesse ocupar um dos primeiros lugares.

Mas não o primeiro. Intimamente associadas a ela estão questões de identidade cultural e nacional. Esse é o elemento constante, presente em qualquer circunstância, independentemente de classe social ou partido político, sendo mesmo anterior e superior a qualquer razão que possa ser apresentada para justificar a saída da Grã-Bretanha do bloco de integração regional: sem uma ideia orientadora que remeta a conceitos como nação, Estado nacional, soberania nacional ou pátria, esse referendum não teria se realizado. Tal como há cem anos, o discurso nacionalista encontra eco e, por isso, oferece o lastro necessário para justificar o divórcio britânico com o bloco de integração regional. Sem ele, não faria sentido falar em controle nacional e soberano sobre elaboração e execução de políticas públicas ou em fechamento de fronteiras para imigrantes.

Se essa hipótese estiver correta, isto é, se aquilo que efetivamente possibilitou o referendum e o seu resultado foi o nacionalismo, então, pode-se dizer que a UE falhou em não forjar um substituto à altura da ideia de pátria. Sem uma ideologia aglutinadora, não se conquista adesão de ninguém. O ser humano já se mostrou capaz de sacrificar-se, matar e morrer em nome de Deus ou da Nação, quando não de ambos, mas nenhum processo de integração regional até hoje pôde, por si só, seduzir as pessoas e conquistar sua fidelidade com a mesma eficiência. Até os defensores da permanência do Reino Unido no bloco, não podendo negar os valores nacionais, foram levados a afirmar que permanecer na UE seria um ato de patriotismo. Não negam a pátria, mas fazem uma releitura dos valores pátrios, revendo a melhor maneira de servir à Nação.

Essa incapacidade de superar o apatetamento patriótico coloca em risco a própria existência da UE e joga na incerteza não somente a história do Reino Unido da Grã-Bretanha ou da Europa, mas também a da humanidade.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.