São Paulo, 468 anos: uma cidade doente e negligenciada

Geraldo Miniuci

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A cidade de São Paulo completa, hoje, 468 anos. O que há para comemorar?

Vista do alto, percebe-se uma cidade doente, com prédios por todos os lados, como um tumor cancerígeno em franco processo de metástase, que atinge, indistintamente, todos os bairros, destruindo a memória e a história de cada um deles. E ninguém faz ou fala nada! A construção civil avança soberana e impunimente, com seus tratores que já causaram mais estragos na paisagem urbana da cidade do que todos os tanques de guerra das forças aliadas na Alemanha, durante II Guerra Mundial. Apenas para ficarmos num único exemplo, a cidade alemã de Colônia, duramente atacada por aviões britânicos e norte-americanos, ainda preserva construções do tempo de sua fundação pelos romanos, há mais de 2000 anos, e uma belíssima catedral inaugurada em 1322. Embora nunca tenha sofrido os bombardeios com as dimensões daqueles que devastaram cidades europeias, São Paulo se destrói não por ataques de forças estrangeiras inimigas, mas pela ação de seus empreendedores e pela omissão de sua própria gente, que, calada, assiste ao surgimento de edificações vendidas como expressão máxima de sofisticação.

O mapa hidrográfico da cidade de São Paulo mostra a existência de centenas de rios, riachos e córregos, muitos encanados ou soterrados, outros, como os rios Tietê e Pinheiros, tratados como se fossem esgotos a céu aberto. Se as gerações do passado disputavam torneios de natação no Tietê, as do presente são obrigadas a tapar o nariz, tamanho o odor que se exala de suas águas, sobretudo na região de Alphaville. Se, no início do século XX, o rio Pinheiros era frequentado por famílias paulistanas, em programas dominicais, ou por pescadores e banhistas, hoje, esperar utilizá-lo como fonte de água potável ou para pesca e banho, mais que uma ilusão, é delírio.

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São Paulo segue o surrado mote de que não pode parar, de que proteger uma cidade é condená-la ao atraso, de que a ordem é o progresso, o progresso desenfreado, sem planejamento, sem rumo, sem horizonte, de uma metrópole que se autodevora, transformando belos casarões não em museus ou centros culturais, mas em estacionamentos, shoppings ou, claro, em empreendimentos imobiliários, que prometem lazer diferenciado, no imóvel que você sempre sonhou.

O que esperar de uma cidade, cujos cidadãos elegeram como prefeitos políticos que não cumpriram seu mandato, embora tenham se comprometido por escrito a fazê-lo? O que esperar de uma cidade, cuja população não se importa com a promessa não cumprida feita pelos seus alcaides, não dando valor à palavra por eles empenhada? O que esperar de uma cidade, se sua gente se deixa instrumentalizar por políticos que usam a metrópole para seus projetos pessoais, como chegar ao Palácio dos Bandeirantes, quiçá à Presidência da República? Que os eleitores se tenham deixado enganar uma vez é difícil aceitar, mas duas, isso já é alienação, isso já é rebaixar-se à condição de capitão do mato.

Capital de um estado com a riqueza do Texas e a mentalidade do Alabama, São Paulo tem um patrimônio valiosíssimo, que talvez seja a sua salvação: a diversidade cultural e, principalmente, étnica: Parada Gay, Marcha para Jesus, festivais de cinema e teatro, gastronomia, judeus, muçulmanos, bolivianos, coreanos, japoneses, chineses, haitianos, brasileiros de outras paragens, ateus, budistas, pansexuais, há espaço para toda a gente, e isso salva a cidade do provincianismo a que ela estaria condenada.

De nada adianta, contudo, uma esfera pública rica e diversificada, como a nossa, se ela permanecer divorciada do sistema político, ou se apenas uma parte dela colonizar a gestão da coisa pública municipal, enquanto todo o resto permanecer omisso, desorganizado politicamente e indiferente ao que agentes do poder econômico fazem com a cidade. Seria importante, nesse sentido, não somente que os imigrantes estrangeiros que adotaram São Paulo pudessem eleger e ser eleitos para a Câmara dos Vereadores e a Prefeitura, como também, e principalmente, que toda a gente, até agora omissa, saísse do marasmo em que se encontra e assumisse a responsabilidade pelos destinos da cidade, antes que termine por cair no fundo de um poço, do qual talvez nunca mais saia.

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