Uma visão menos simplista da crise grega

Rafael Mafei Rabelo Queiroz

03 Agosto 2015 | 09h51

Virginia Mantouvalou*

Octavio Luiz Motta Ferraz**

A crise grega, como qualquer crise, apresenta uma oportunidade para reflexão sobre o que se fez de errado e o que se pode fazer para não se repetir os erros do passado. É também uma oportunidade para outros países com problemas similares, como o Brasil, aprenderem com as experiências alheias. Mas para que esse exercício seja frutífero é necessário evitar simplificações e preconceitos e apoiar-se em dados sólidos e confiáveis.

O artigo do sociólogo e diplomata Luiz Felipe Lampreia publicado recentemente (“Os inacreditáveis talentos gregos”, 7.7.2015) é infelizmente um exemplo desse tipo de análise inadequada que prolifera pela imprensa ao redor do mundo. Está apoiado em asserções historicamente questionáveis e dados equivocados. Leva inevitavelmente a um quadro simplista, e até mesmo ofensivo, da situação complexa que a crise grega representa. É importante rebater esse tipo de manifestação para que o público tenha uma melhor e mais sofisticada compreensão desse difícil momento histórico por que passa a Grécia.

O principal argumento do artigo é que os gregos de hoje são não apenas muito piores que os da Era de Ouro (Platão, Aristoteles etc), mas realmente muito ruins, provavelmente os campeões do mundo do “jeitinho”. Seus incríveis talentos do título do artigo são na verdade apenas um: a habilidade de tomar empréstimos enormes e nunca pagar.

Na tentativa de fundamentar essa opinião o autor cita uma série de estatísticas (aparentemente tiradas de um relatório da Comissão Européia cuja referência não é fornecida). Mas a maior parte desses dados, venham de onde vierem, estão errados, por vezes muito errados. Por exemplo, o autor afirma que na Grécia há um total de 4 milhões de funcionários públicos para uma população de 11 milhões de pessoas. O número correto é 580.000, e continuará a cair em vista de reformas adotadas em 2008 e intensificadas recentemente segundo a qual para cada 10 funcionários perdidos, por aposentadoria, morte etc, apenas um pode ser contratado. (https://euobserver.com/economic/128390). Na verdade, 4 milhões é o número da total de trabalhadores gregos! O autor busca produzir uma imagem do sistema de aposentadorias e pensões na Grécia como um paraíso de generosidade e prodigalidade se comparado aos da Alemanha, França e Japão. A realidade é que o benefício médio na Grécia é relativamente baixo, aproximadamente 700 euros por mês, e 45% dos pensionistas recebem menos do que é considerado como o piso de pobreza na Europa de 665 euros por mês. (http://www.theguardian.com/business/2015/jun/15/unsustainable-futures-greece-pensions-dilemma-explained-financial-crisis-default-eurozone)

O autor afirma ainda que, apesar de muito ruim, o sistema educacional grego emprega 4 vezes mais professores que a média européia. Mais uma vez, trata-se de um dado simplesmente equivocado. De acordo com os dados mais recentes do Banco Mundial, a Grécia tinha 69.227 professores primários em 2012 e 86.513 professores secundários em 2007, enquanto a Alemanha possuía 250.704 e 593.011 respectivamente, a França 233.262 e 490,955 e o Reino Unido 247.079 e 378,882. Mesmo que autor estivesse falando da proporção de professores pelo tamanho da população estaria errado, pois a Grécia está abaixo da média européia de 2%. (http://data.worldbank.org/indicator/SE.PRM.TCHR)

Não estamos querendo dizer, evidentemente, que a Grécia não cometeu nenhum erro e que a crise nada tem que ver com os graves problemas estruturais de sua economia e setor público. Estamos dizendo apenas que opiniões fundadas em dados equivocados e enganosos são, na melhor das hipóteses, inúteis. Na pior, prejudiciais ao correto entendimento da crise e o aprendizado que ela pode propiciar.

É preciso enxergar que a crise grega result de uma combinação mais complexa de fatores. Não há dúvidas de que reformas profundas são necessárias no nível nacional. Por exemplo, a Grécia precisa enfrentar a cultura de clientelismo que o presente governo de coalizão entre a extrema direita e a extrema esquerda mostraram até agora pouca ou nenhuma vontade de enfrentar. O sistema tributário também precisa de reformas que promovam igualdade social ao invés de sacrifícios dos mais pobres. Mas a esses e outros fatores internos que levaram à crise deve-se adicionar também fatores externos, como a estrutura da área do Euro, onde há uma união monetária sem uma correspondente união fiscal e política. Isso leva a desequilíbrios que são favoráveis aos países economicamente mais fortes e prejudiciais aos mais fracos, como a Grécia e outros do sul europeu. Além disso, muitos economistas respeitados têm defendido que a austeridade fiscal imposta pelos credores como condição dos empréstimos não vai levar à recuperação. Ao contrário, apontam que o débito grego não é sustentável (http://www.voxeu.org/article/lse-letter-greece-crisis). O mais recente acordo não prevê nenhum abatimento da dívida e oferece parcas esperanças de que a recuperação terá sucesso, porque as medidas requeridas não induzirão crescimento e há enorme resistência da população a mais reformas.

Além do aspecto econômico da crise, há o aspecto político, igualmente crucial. Desde 2010 há um crescimento do populismo e de visões políticas extremas. O exemplo mais óbvio é a subida do Golden Down, um partido político simpatizante do nazismo, cujos membros são acusados de ataques violentos contra imigrantes. Tanto o governo atual quanto outros partidos políticos apelam cada vez mais para os sentimentos nacionalistas. Ao nacionalismo está sendo adicionado o anti-europeanismo e uma aproximação com a Rússia, e encontra suporte em outros movimentos de extrema direita na Europa, como o Lepenismo na França e o UKIP no Reino Unido, ambos apoiadores do “Não à Europa” no referendo de julho. O Euro-ceticismo também começa a ganhar terreno na esquerda européia entre aqueles que acreditam que a UE está fazendo imposições injustas à Grécia. Essas vozes não compreendem bem o que está efetivamente em jogo em relação ao passado, presente e futuro da Europa. Desenvolvimentos recentes estão levando a uma grande polarização com pouca abertura para o diálogo.

Depois da segunda guerra, a Europa construiu organizações e instituições supranacionais para promover a paz, direitos humanos, democracia, prosperidade econômica e justiça social. A esperança é que tanto a Grécia quanto a Europa saiam mais fortes dessa crise, e que a UE esteja firmemente fundada no valor da solidariedade. Mas para que isso seja alcançado é preciso primeiro entender e enfrentar a complexa situação atual, com dados verdadeiros e análises profundas, sem preconceitos e simplificações.

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*Professora da University College of London, Faculdade de Direito (http://www.laws.ucl.ac.uk/people/virginia-mantouvalou)

**Professor da King’s College London, Faculdade de Direito (http://www.kcl.ac.uk/law/people/academic/oferraz.aspx)