Voto, cobrança e crítica

Rafael Mafei Rabelo Queiroz

16 Março 2015 | 11h22

A capa da Folha hoje dá conta de duzentas e poucas mil pessoas na Avenida Paulista. As contas da PM falam em 1,2 milhão. Em qualquer caso a manifestação foi gigantesca, a mais importante desde as Diretas. Mas não deixa de ser sintomático que nos dias de hoje não consigamos chegar perto de concordar sequer na aritmética. Há diferentes métodos de contagem de público, certo. Mas entre duzentos mil e 1,2 milhão há o mundo. Estamos extremados nas contas e nas opiniões. Nessa hora, o melhor que cada um tem a fazer é dizer o que pensa, da maneira mais clara possível.

Não estava no Brasil durante o segundo turno das eleições passadas. No primeiro, não votei nem em Dilma nem em Aécio. Se tivesse aqui no segundo turno, eu teria votado na Dilma, mesmo que com gosto de fel na boca. Não existe visão a partir do lugar nenhum; cada um vê o mundo de onde está. Sou funcionário público do Estado de São Paulo e trabalho com educação superior. Pelo que vivo na USP e pela memória que tenho da gestão do MEC nos governos do FHC, não conseguiria votar no PSDB. (Como diz um amigo meu de redes sociais, tenho dificuldades de apertar o 45 até no micro-ondas). As áreas de segurança pública e política penitenciária, que também me tocam, igualmente me afastam do PSDB, com cujas linhas, especialmente no governo Alckmin, não consigo concordar.

Mas não gosto do governo Dilma. Não encho a boca para defendê-lo desde que rifaram a Comissão de Direitos Humanos para o Feliciano. De onde vejo o mundo, a questão LGBTT é muito sensível para mim, por razões de justiça e também pessoais. Em questões sociais, embora não tenha votado na Dilma, sinto-me traído pela campanha – tanto quanto fomos na reeleição de FHC-2 com a questão do câmbio. Para mim, a “Pátria Educadora” começou 2015 com bolsas atrasadas do Programa de Educação Tutorial do Ministério da Educação, do qual sou tutor na Faculdade de Direito da USP (foram regularizadas semana passada, depois de infinitas reclamações minhas e de outros tutores). Para outros, começou com mudanças de última hora no FIES e com atrasos no pagamento de bolsistas do ensino superior do Governo Federal. Nós, mortais, diferentemente do governo, não podemos atrasar pagamentos impunemente: bolsista cata moedas entre as almofadas do sofá para fechar as contas no fim do mês. É uma irresponsabilidade sem tamanho não dar avisos ou satisfações públicas a quem será vítima da “pedalada fiscal” para não ter o ônus de arcar publicamente com suas decisões.

Por isso, é um erro assumir que todo mundo que critica o governo hoje está entre os que votaram em Aécio e fazem birra eleitoral extemporânea. Quem votou na Dilma, ou a apoiou em face de sua campanha em 2014, tem razões de sobra para estar descontente. Essa posição é tão errada quanto a de quem acha que o eleitor da Dilma “não pode reclamar” pelo que está aí por ter votado 13. Errado: não só pode, como deve. O eleitor tem direito de exigir que o governo seja aquele no qual  votou. Assim como quem votou no Alckmin não precisa ficar feliz com um eventual rodízio quando as águas de março acabarem, e deve criticá-lo por ter escamoteado o racionamento que obviamente é praticado em São Paulo desde então. Não há nada incompatível entre o voto, hoje, e a cobrança crítica, amanhã. Só não vê isso quem se relega ao papel de cão de guarda incondicional de uma legenda política (e crítico hidrofóbico da legenda oposta, o que dá no mesmo).

Com todas as minhas birras e reclamações, contudo, tenho clareza que Dilma foi eleita e é nossa presidente. Sua posição, como tal, deve ser defendida não pelo meu gosto em seu governo, mas pela importância que atribuo ao cargo. Os gritos de “fora PT” e “fora Dilma”, neste momento, são proto-golpistas. Você, que no fundo do seu coração, não se sente golpista mas apenas indignado, por acaso sabe o que sentia, no fundo do coração, o sujeito que fazia coro de “Fora PT” ao seu lado? Na política nós somos as bandeiras que defendemos. De nada adianta não ser golpista mas servir a golpes.  O “fora Dilma” ainda disfarça um pouco, mas o “Fora PT” nem se dá a esse trabalho: é um repúdio a um partido, não a um ato ilegal cometido no exercício do cargo (que é o requisito constitucional para o impeachment). Partidos podem ser repudiados, claro, mas em nosso sistema isso tem dia e hora para acontecer: nas eleições.

A energia dos protestos deveria canalizar-se para algo positivo. Os “Foras…” só dão combustível ao PMDB, em cujas mãos estão a presidência da Câmara, do Senado – ambas têm importante papel em processos de impeachment – e a Vice-Presidência.

Bom para nós que boa parte das lideranças políticas, mesmo as que se opõem a Dilma, não tem embarcado na aventura do “fora”. A Marina, que foi massacrada por golpes boçais e abaixo da linha da cintura durante a campanha, é o melhor exemplo. Agindo pelo impeachment, por ora, só o Bolsonaro, o que por si só já mostra o destempero da posição.

Termino indicando três outros bons textos sobre os protestos de ontem, porque o momento é para reflexão:

José Roberto de Toledo

Kennedy Alencar

Marco Antonio Teixeira