11 de setembro e amnésia digital

11 de setembro e amnésia digital

Edmundo Leite

11 Setembro 2011 | 10h01


Terça-feira, 11 de setembro de 2001 – 10h01

Primeiro relato publicado no portal Estadão sobre os atentados

 

Os atentados terroristas de 10 anos atrás em Nova York e Washington representam  para a internet o mesmo que a chegada do homem à lua significou para a televisão no fim dos anos 60. Nos dois casos, as tecnologias – de transmissão ao vivo por satélite e de compartilhamento online e digital – já estavam disseminadas há algum tempo. Mas passaram a ser protagonistas  da história ao permitir que uma massa planetária de pessoas,  mais do que ser informada do fato histórico em seu exato momento, experimentasse as possibilidades da comunicação  de uma maneira jamais vista.

Mesmo com a TV ainda mantendo a ponta ao transmitir ao vivo o choque dos aviões, o desabamento das torres  e o sofrimento das vítimas, a internet mostrou a que veio com todas as suas possibilidades a partir daquela manhã de setembro. Pouco depois do atentado, um conteúdo sem igual passou a ser publicado na rede, não só pelos tradicionais responsáveis por informar, mas pelas próprias pessoas em vários lugares do mundo. Com o passar dos dias, esse conteúdo cresceu ainda mais e ia desde fotos e vídeos  exclusivos dos atentados a teorias conspiratórias e brincadeiras. A mais famosa, a do Tourist Guy, um  turista que teria sido fotografado no topo de uma das torres momentos antes do choque do avião.

A maior parte desse conteúdo se perdeu.  Uma ou outra coisa ainda pode ser encontrada como originalmente publicada.  Passados alguns anos, todo aquele gigantesco conteúdo  se dispersou no ar como a poeira que no primeiro momento cobriu Nova York.  A despeito de seu desenvolvimento tecnológico, a internet ainda não resolveu como irá preservar a sua memória.  Paradoxalmente, é mais fácil encontrar uma informação publicada por um jornal em papel há um século do que achar o que foi publicado exclusivamente no formato digital naquele 11 de setembro.

Publicações exclusivamente digitais que deixaram de existir, como o memorável NoMínimo, não contam com bibliotecas ou arquivos digitais para guardar seus conteúdos para a eternidade como acontece até com obscuras edições que circularam precariamente em papel. E mesmo publicações  que  continuam existindo digitalmente ainda não se preocupam em preservar seu conteúdo digital com os mesmos parâmetros adotados para o papel.  Aqui no Estadão, por exemplo, apesar de ser possível encontrar parte dos textos da cobertura digital  de 11 de setembro de 2001, perdeu-se todo o esforço multimídia originalmente  realizado naqueles dias.

Já existem algumas iniciativas no sentido de mudar esse cenário , como o Archive.org, de  onde foram garimpados os arquivos desse post, e instituições pensando no assunto, como a Biblioteca do Congresso Americano, que criou um programa de Preservação Digital. Mas enquanto não surge uma solução, a internet vai se virando como aquele personagem principal do filme Amnésia, que fotograva com Polaroid, escrevia bilhetes e tatuava o próprio corpo para relembrar de fatos recentes do qual se esquecia rapidamente.

Nesse aniversário de 10 anos dos atentados, mais um turbilhão de informações sobre o assunto volta  ser publicado na web, grande parte  relembrando coisas que poderiam estar à mão em um clique.  No mundo digital, não é preciso um ataque de aviões para derrubar edifícios sólidos.

Terça-feira, 11 de setembro de 2001 – 10h25

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Fragmentos da seção especial criada naquele dia e alimentada
por um longo período ainda podem ser vistas no Archive.org

# Veja quais eram as notícias publicadas pelo Estadão pouco antes dos atentados  

# Em memória de um outro crime, de João Moreira Salles (NoMínimo)

# A difícil tarefa de traduzir o horror

# Outros 11 de setembro