A vida inventada de Dylan

A vida inventada de Dylan

Edmundo Leite

24 de maio de 2011 | 07h01

Guthrie e Dylan

Um dos artistas mais influentes do século passado, por algum tempo, não queria ser quem era. E não foi a mera questão de criar uma persona artística para  substituir o Robert Zimmermann que nasceu há exatos 70 anos, trocando o nome com o qual foi batizado pela alcunha que ficaria conhecido. Se já dava sinais de que seria um criador que despontaria para o sucesso, o jovem artista Bob Dylan achava que sua pacata  vida de criança e adolescente classe média numa cidade interiorana  não fazia juz a tudo o que tinha a dizer ao mundo. Para suprir essa lacuna de vivências mundanas, Dylan inventava. Sem pudores. Nos relatos sobre  sua então curta vida,  o gelado norte da América dava lugar a desertos do sulista Novo México e Califórnia. Os pais de uma família estruturada não existiam e muitos pensavam que ele fosse um órfão vagando pelo país. De origem judaica, se transformou em herdeiro de ancestrais sioux, índios das mais antigas tribos do território americano.

Em “Dylan: a Biografia“, o jornalista Howard Sounes conta que a tendência de Dylan em fantasiar vinha desde os tempos em que morava na gelada Hibbing, Minnesota. “Bob inventava histórias fantásticas e depois contava como se fosse verdade absolutas. Certa vez contou a Echo (namorada) como se deparou com uma cobra enrolada em uma árvore ao sair da casa dela. Ele contou a história com tanta convicção, tornando a cobra na árvore tão vívida, que ela acreditou nele por um instante. “Depois eu pensei, Deus, ele inventou isso. Não há cobras nas árvores de Minnesota”.

Com o tempo, as cascatas ingênuas foram dando lugar a histórias cada vez mais mirabolantes. Quando se mudou para as cidades gêmeas de St. Paul e Mineapolis para cursar a faculdade, passou a negar a origem judaica, mesmo morando numa fraternidade de rapazes judeus.  Segundo conta Sounes, Dylan não tinha  vergonha de ser judeu, mas  parecia  não querer ficar limitado e ser definido pela sua origem  ao olhos dos outros. Seja qual era a sua motivação, o jovem artista não fazia a menor questão de se integrar e fingia não ser judeu.

Obstinado em se tornar um astro da música, Dylan fazia questão de parecer mais experiente do que realmente era nos lugares em que passava.  E se achasse que distorcer a verdade o ajudaria a trilhar o caminho que queria seguir, não economizava na imaginação, conta Sounes. Após largar a faculdade – para decepção dos pais (“o que quer aque aconteça, não fique escrevendo poesia. Por favor não faça isso”, suplicava a mãe”) – e seguir rumo ao fervilhante Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York, Dylan esculpiu um personagem andarilho que só existia em sua imaginação: “Bob, o falso vagabundo sujo”.

O papel não era de todo irreal, já que Dylan realmente incorporou um vestuário de brim e algodão que parecia saído do filme “Vinhas da Ira“, clássico do cinema americano sobre trabalhadores numa  das épocas maos difíceis do país.  Para conceber essa criatura, Bob tinha uma referência. Após inventar vidas que não teve, lugares pelos quais não passou e parceiros com quem não tocou, ele passou a ter uma devoção quase religiosa a Woody Guthrie, o cantor símbolo da autêntica música folclórica americana.

Quero ser Woody Guthrie

A partir do momento em que conheceu a música e a história de Guthrie, através da biografia “Bound of Glory“, emprestada por um amigo, e de discos surrupiados,  Dylan se apossou de várias citações sobre a vida do ídolo para montar sua própria trajetória imaginária.  E o livro – que anos depois viraria filme com David Carradine no papel de Guthrie- era perfeito para isso. Começava com vagabundos andando em um vagão de carga por Minnesota depois de terem pulado para dentro do trem em Duluth – a cidade onde Bob Dylan nascera, e os mesmos trilhos que ele vira chacoalhar por Hibbing”.

Dylan também adotou  a o linguajar dos personagens  vagabundos de Woody Guthrie. E, claro, também o repertório do ídolo. Quando estava bêbado ou chapado de maconha, Bob colocava um chapéu velho e fingia ser Guthrie. “Se você não o chamasse de Woody, ele não respondia”, conta Bonnie Beecher na biografia.

Se você acha que não há semelhança entre as duas imagens do início desse post, saiba que  Woody também tocava gaita usando uma armação simples de arame em volta do pescoço, engenhoca que também se tornaria um dos símbolos de Dylan. Um boné parecido ao de Guthrie também pode ser visto na foto de Dylan em seu primeiro disco, além de outras poses, caras e bocas claramente inspiradas no ídolo. Paralisado por uma doença cerebral herditária chamada Coréia de Huntington, Wody Guthrie, então com 48 anos era, nas palavras do biógrafo de Dylan, um velho “caquético  e trêmulo.

Dylan, ainda antes de se tornar famoso, deu um jeito de ir conhecer Woody pessoalmente. E mesmo o provável fato de que o ídolo não pudesse sequer lembrar dele após as primeiras visitas, passou a frequentar a casa de Guthrie e a conviver com amigos e familiares que cuidavam dele. Apesar de Woody, quando são,  se orgulhar da dicção clara, Bob passou a imitar  a voz dele doente, arfando antes das palavras  como se fosse a autêntica voz de Guthrie. Como talismã, Dylan adorava exibir um cartão onde  Woody escrevera: “eu não estou morto ainda”.  Com o sucesso começando a despontar, Bob Dylan compõs uma bela homenagem ao ídolo que entaria em seu disco de estréia. A melodia de “Song to Woody era  adaptada da “1913 massacre”, do próprio Woody, além de usar na letra um verso de uma outra música do guru.

Woodie era uma influência nítida, mas aos poucos o magnetismo de Dylan  começou a chamar atenção no Village. Ao mesmo tempo que surgiam histórias duvidosas de que o altamente debilitado Woody o havia escolhido como seu sucessor.

Enquanto seguia rumo ao estrelato, Dylan continuava a contar suas histórias improváveis em Grenwich Village. Quando bebia, a coisa ficava ainda mais incrível. O músico Dave Van Ronk conta que uma das mais extraodinárias foi a de que Bob afirmava não ser descendente de judeus, mas sim de índios sioux. “Ninguém o discriminou por causa disso, diverte-se Van Rock. Reiventar-se sempre fez parte do show, mas ele meio que se enfiou num beco sem saída com a sua própria história. Eu me lembro de ele nos ter feito uma demonstração da língua de sinais dos índios, que estava obviamente inventando naquele instante.”

Na medida que o sucesso ia aumentando, as lorotas de Dylan começavam a ganhar mais repercussão. À vontade  e com a arrogância típica dos jovens, Dylan demorou a perceber  que a exposição aumentava amplitude das mentiras que contava.  Nos pequenos shows no Village logo antes do sucesso, contava histórias suas em Gallup, no Novo México, onde nunca tinha colocado os pés.  Segundo ele, era dali que vinha uma de suas bagagens musicais, cantando em parque de diversões e sendo   cantor de blues itinerante.

Em franca ascenção, não demorou para Dylan ser descoberto pela imprensa. Ainda sem contrato com um gravadora, deu a sua primeira entrevista de cara para o prestigioso The New York Times quando estreou um show mo Gerde’s Folk City. Sem se intimidar, conta o biógrafo de Bob, inventou adoidado para o repórter Robert Shelton, afirmando ter aprendido alguns dos improvisos que fazia no violão com o músico de blues Wigglefoot, que conhecera no Novo México, e ter gravado com Gene Vincent. “Shelton, inteligente, passou por cima desses absurdos, escrevendo que Bob fora vago no que se refere a seus antecedentes e local de nascimento, mas importa menos onde esteve do que para onde vai”, o que parece ser direto para cima”.

Shelton estava certo. Seu texto foi publicado em 29 de setembro de 1961.  Um mês depois, Bob Dylan fechava contrato de cinco anos com a gravadora Columbia.

Dois anos depois, com o artista  já vivendo  sucesso estrondoso e lançando o fundamental “The Freewheelin’ Bob Dylan”,  as fantasias de Bob não contariam mais na imprensa com a boa que vontade que o New York Times teve. Na edição de 4 de novembro de 1963, a revista semanal Newsweek publicou um artigo zombando da imagem e da artificialidade do modo de falar de Bob, com o subtítulo “sacou, bicho” e desmascarando as mentiras que Dylan contara ao longo dos últimos tempos, revelando que seu passsado em Hibbing era convencional e de classe média, além de retratá-lo como um jovem vaidoso que havia manipulado a verdade para alavancar a carreira.

Em contraponto às declarações de que não conhecia os pais – ‘Eles não me conhecem. Perdi contato com eles por anos” – a reportagem da Neewskeek mostrava que o Sr. e Sra. Abe Zimmerman estavam em Nova York ansiosos para ver o  filho cantar no Carnegie Hall, tendo inclusive recebido os bilhetes do próprio. Para piorar, o irmão mais novo, David, contava à reportagem, não assinada, que Bob esteve na casa dos pais havia poucos meses.

Dylan, é claro, ficou possesso de raiva. Não só com a revista, como também com a família, narra Sounes. E sua relação com a imprensa, que já era de zombaria, azedaria de vez a partir daí.  O estrago do artigo da Newsweek, que ainda trazia os rumores  de que ‘Blowin in the Wind’ não era de sua autoria,  só não foi maior porque poucos dias depois John Kennedy seria assassinado a tiros no Texas, deixando qualquer outro assunto praticamente no esquecimento.

Com a maturidade artística e pessoal, Dylan seria cada vez mais Dylan. Não precisaria mais inventar um passado: todos sabiam, no presente, da sua grandeza e genialidade.  Os primeiros 20 anos inventados de Bob Dylan foram sintetizados pelo radialista Oscar Brand, que em novembro de 1961 ouvira várias lorotas de Dylan quando o entrevistou, mas não usou isso contra ele:  “Ele escreveu um poema que era a vida que ele queria. Ele o idealizou para si mesmo. Ele o escreveu para si mesmo, e ele mesmo o representou…  Foi isso que o tornou bem sucedido.”

# Texto escrito com informações e citações do livro “Dylan: a Biografia“,  de autoria de Howard Sounes, publicado no Brasil pela Conrad Editora. (Esgotado. Disponível na Estante Virtual)

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