Ajude um repórter a…

Ajude um repórter a…

Edmundo Leite

14 Outubro 2011 | 08h01

A primeira vez que vi @ajudeumreporter no twitter pensei que fosse uma daquelas campanhas de solidariedade a um colega em situação difícil. Talvez vítima de algum infortúnio, como doença grave com tratamento caríssimo. Demissão com calote, ameaça de descontentes com suas reportagens, vítima de censura, opressão, injustiça ou agressão foram outras situações que me vieram à cabeça diante do apelo precedido da arroba que praticamente já virou letra do alfabeto. Seria algum conhecido? E mesmo que não fosse, talvez pudesse ajudar. Ou, verdadeiro motivo, apenas matar a curiosidade. Clique imediato.

Apesar de as situações acima não serem raras, nenhuma delas era o motivo da mobilização na rede social do passarinho. Tampouco era um único repórter que precisava de ajuda. Eram muitos. E todos eles precisavam do mesmo tipo de ajuda: encontrar uma fonte para as suas reportagens. (Para quem não está familiarizado com as entranhas jornalísticas, fonte é, resumidamente, como chamamos as pessoas e instituições que são entrevistadas ou dão informações ao repórter para que este produza as suas reportagens).

Após o espanto inicial com a novidade veio a incredulidade: não havia mais pudor de se escancarar para a concorrência o que estava se planejando publicar em seu veículo? Após a incredulidade, um misto de diversão com outro sentimento ainda difícil de definir. Como num daqueles anúncios em que uma pessoa procura um par amoroso, jornalistas procuram alguém para preencher o vazio, não de seus corações, mas de suas pautas.

Assim como os solitários dos classificados idealizam um amor perfeito [“homem, meia idade, sit. financeira estabilizada, procura mulher 25 a 30 anos, loira, olhos verdes, s/ filhos, + 1,70m, p.relacionamento sério. Prefr.BH. Descarto aventuras”], os repórteres que precisam de ajuda também estão em busca do entrevistado ideal:

“…procura pessoa q deteste Legião Urbana.”

“…procura loja ou fabricante de berrante na cidade de SP.”

“…procura pessoas q acordaram após período em coma.”

“…procura alguém q teve piora no rendimento físico por conta de problema bucal.”

“…procura mulher q coma mto chocolate todos os dias e não tenha problemas de saúde por isso.”

“…procura empresas q ainda não saibam como reter talentos, mas tenham planos p/ 2012.”

O resultado da busca pela fonte ideal, aparentemente, tem sido um sucesso. O serviço foi aprimorado e ampliado. Além do Twitter, está no Facebook, virou blog e um site onde jornalistas e fontes se cadastram em busca do encontro perfeito.

Como não me cadastrei, fico a imaginar como seria o flerte entre o repórter e o entrevistado pretendente. Será que, como costuma acontecer nos sites de relacionamentos e salas de bate-papo – dizem (rs) – , as pessoas também se pintam com tintas mais vistosas, dão um verniz a mais em seus perfis? Um repórter de um modesto jornal de pequena tiragem atrai uma fonte incauta com promessas de milhões de leitores?  Ou será que um entrevistado tenta dourar a pílula ao descrever seus atributos? “Especialista na área. Declarações polêmicas e inovadoras. Aspas perfeitas”, quando na real se trata de apenas mais um a repetir velhos chavões. As fontes estariam dispostas a  relacionamento duradouro ou a uma pauta apenas?

Procurar por possíveis fontes sugeridas na pauta (o planejamento da matéria, como costumamos chamar as reportagens) nem sempre é uma tarefa fácil. E mesmo antes da internet repórteres sempre recorreram a uma rede de amigos, amigos de amigos, conhecidos, e a listas organizadas de especialistas em determinado assunto para conseguir um entrevistado, uma fonte ou, como se diz no jargão das redações, um personagem.

Mais que um entrevistado, é isso o que o repórter que precisa de ajuda procura: um personagem. A apropriação do termo das obras de ficção não significa que as reportagens sejam ficcionais, teatrais, cinematográficas ou fantasiosas. Reportagens que precisam de personagens não são uma notícia em sua concepção clássica, onde um fato é relatado e alguém é entrevistado por ter participado do ocorrido. É algo mais elaborado. É preciso encontrar alguém cuja história ou situação possa ilustrar uma reportagem sobre um assunto maior. Ao contrário do que alguns possam imaginar, esse tipo de matéria não é menos nobre que outras. E muito bom jornalismo é feito nessa área.

É nesse ponto que começa o problema do Ajude um Repórter. Apesar da boa intenção de criar uma ferramenta que aproxime repórteres de possíveis entrevistados, o serviço tem uma distorção em sua concepção ao oferecer fontes sedentas de notoriedade. Os dizeres da página principal deixam claro a visão que se tem do papel da fonte:

“Sua chance de aparecer na mídia.”

“Ganhe exposição na imprensa sem custo.”

“Compartilhe o seu conhecimento. Construa a sua marca.”

Outros textos publicados no blog vão além:

“Não é preciso ter estrutura de comunicação profissional quando você tem o conteúdo que o jornalista quer e sabe exatamente como fazer contato. Hoje, qualquer pessoa pode participar de matérias em pequenos ou grandes veículos de comunicação espalhados por todo o Brasil…”

“Já imaginou sua startup aparecendo na capa de algum jornal? Pode ser um grande impulso para novas oportunidades e sem nenhum custo, afinal.”

Aparecer na mídia é o conceito repetido à exaustão nos textos que explicam ou promovem o serviço, criado por um jovem e bem intecionado RP (relações públicas) que captou recursos pela internet para expandir a ferramenta. O fato de a ferramenta ter sido criada por um profissional que tem entre suas funções promover a imagem de seus clientes ajuda a entender um pouco o porquê desse viés.

Curiosamente, o texto de onde saiu o trecho acima começa falando que a missão do serviço é “democratizar o relacionamento com a imprensa”. A frase pode até lembrar aquelas bravatas de militantes que enxergam a imprensa como um inimigo a ser combatido, mas o Ajude um Repórter está bem longe disso. E até se vale do nome de grandes veículos de comunicação como chamariz (“mídias que usam”) para atrair mais usuários. Com sua vocação empreendedora e colaborativa, de certa forma até ingênua, parece pretender ajudar os “sem-imprensa”, o que poderia ser até um aspecto louvável. Traria novos nomes para o círculo de notícias e debates ao mesmo tempo que possibilitaria aos repórteres ter acesso a nomes que nem saberiam da existência se não fosse a ferramenta.

Pelo lado das redações, pensando num coitado que está atolado num prazo impraticável e em outras pautas diferentes, não há como negar que o site possa  resolver uma questão imediata. E é preciso deixar de lado aquela ladainha saudosista e antitecnológica de que “antigamente tinha que ralar e sair na rua para ser repórter de verdade.” Já passou da hora de se reconhecer que também é possível fazer bom jornalismo tirando proveito das inovações tecnológicas.

Mas, diante da obviedade e excentricidade do tipo de fontes e situações procuradas nessa espécie de “disk-fonte”, é inevitável questionar se não há algo de errado do outro lado também. Ao conceber fontes imaginárias na pauta e exigir que se materializem, mesmo com a possibilidade de algumas delas não existirem, não estarão os veículos e os repórteres invertendo o fluxo da reportagem?

Os repórteres estão mesmo precisando de ajuda.