Armando Falcão por Luiz Gonzaga

Armando Falcão por Luiz Gonzaga

Edmundo Leite

12 de fevereiro de 2010 | 06h30

Morreu Armando Falcão, que entre outras coisas foi ministro da Justiça no governo JK – o que poderia render uma menção honrosa numa nota biográfica, não tivesse ocupado o mesmo cargo anos depois, mas na ditadura militar, no governo Geisel.

Ficaria conhecido pelo bordão “nada a declarar” com o qual se esquivava de dar respostas de seus atos e do governo militar para o qual trabalhava e também por uma lei eleitoral apelidada com seu nome.

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Mas, como acontece com  todos,  também deve existir alguma boa lembrança de Armando Falcão, como mostra Luiz Gonzaga na gravação  de um show realizado no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, em 24 de março de 1972.

Amigo de longa data do Rei do Baião, Falcão  foi prestigiar a apresentação do sanfoneiro para um público jovem e descolado em Copacabana.

Acabou incluído nas histórias contadas pelo  velho Lua, que descreveu como se conheceram na antiga e boêmia Lapa e ainda narrou toda a trajetória política de Falcão, com direito àquele tom de chacota que só amigos de longa data se permitem (enquanto não publico o áudio, se deliciem com a narrativa de Gonzaga, boa até em transcrição):

“… Ô xente, eu queria ser o Rei do Baião.

Até que uma certa noite chegasse lá assim um grupo de cearences.

Diziam que eram universitário… Sei lá o que era isso. Era estudante mesmo.

Depois de me agradarem muuito… fizeram uma exigência:

“Olha caboclo, quando a gente voltar outra vez aqui nesse lugar nós só damo dinheiro a você se você tocar um negócio lá daqueles pé de serra.

Você não é sertanejo? Você não é da Serra do Araripe?”

Eu digo: sôô

“Tá feita a exigência.”

Aí eu fiz uma recapitulação, organizei esse numerozinho que eu entrei tocando com ele aqui agora, o ‘Vira e Mexe’…

Éé. Foi o primeeiro.

Quando os cearences chegaram eu disse pra eles:

“Olha, tem um negocinho aqui pra empurrar em vocês.”

“Então manda!”

Lasquei brasa.

“É isso aí, caboclo!”

Naquele tempo era caboclo, agora é bicho

“É isso mesmo! Agora você pode até visitar nossa república.”

“Que diabo é isso?”

“Tem uma república lá na Lapa. Na pesada. Lá que é a pesada mesmo, viu. Só de cearence.

E você tá convidado para ir lá tocar pra nóis.”

Eu fui. Tava agradando.

Ah, ah. Fui conhecer a república dos cearences. Quando eu cheguei lá, era a maior bagunça do mundo. Ja viu? Ahn, república de estudante, ainda mais cearense.

Aí eu em tom de blague disse assim: apresentei o presidente da república. Sabe quem era?

Armando Falcão.

O homem quase foi presidente da república. Quase foi presidente da república mesmo, rapaz:

Bacharel, ahn, deputado, líder, ministro… Foi tudo isso. Faltou pouco pra ser presidente da República.

E seu eu nascesse de novo e pudesse escolher, quando chegasse o dia… 24 hoje, né?

24 de março, de 1972, a essa horinha mesminho, cêis querem saber onde eu queria estar?

Era aqui, com vocês, no Teatro Teresa Raquel, enrolando vocês na conversa, contando essa história, com a presença do deputado Armando Falcão, que tá aqui entre nóis, que não me deixa di mentir…

Foi no governo de Juscelino que ele manobrou! Manobrou na política, meu irmão!

Tem nada, não! Nós tamo aí. O senhor na sua e eu na minha. Agora o senhor tá aguentado aí, aguenta… Tá sentado aí, aguenta o meu negócio que lá vai chumbo, caboclo!

[Volta a música: “Vai boiadeiro que a noite jpa vem. Guarda o teu gado e vai prá junto do teu bem”]

O show de Luiz Gonzaga no Teresão, como era conhecido o teatro em Copacabana, tinha direção de Waly Salomão e José Carlos Capinan e está eternizado no belíssimo disco “Luiz Gonzaga Ao Vivo Volta Pra Curtir”, lançado em 2001 e ainda em catálogo.

É seguramente um dos melhores discos ao vivo de toda a música brasileira. Além dos inúmeros clássicos do cancioneiro de Gonzaga, está cheio de outras histórias tão boas como a reproduzida acima.

Discos do Brasil – Luiz Gonzaga Ao Vivo Volta Pra Curtir

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